Escrevo na manhã seguinte a cerimônia de premiação do Oscar 2025, que consagrou o título Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles, na categoria Melhor Filme Internacional. O filme também foi indicado em Melhor Atriz, com Fernanda Torres, que interpreta a protagonista Eunice Paiva, e Melhor Filme mas, junto ao sucesso cinematográfico, a obra tornou-se um acontecimento histórico-cultural no presente da democracia, marcado pelo retorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao poder após 4 anos de Jair Bolsonaro (PL) – que, a despeito dos sentidos do seu governo, foi denunciado pela Procuradoria Geral da União em 18 de fevereiro por aparente articulação de um golpe de Estado para manter-se na Presidência da República. O mandato de Lula está sendo cumprido porque houve uma derrota da investida que culminou nos ataques à Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.

Em um outro momento histórico, no ano de 1989, foi lançado o filme Que Bom Te Ver Viva, de Lúcia Murat. Estávamos no início da era democrática, na abertura de um novo tempo após o fim da Ditadura Militar, no primeiro aniversário da Constituição Cidadã. Foi o primeiro longa-metragem de Lúcia Murat, lançado na sequência de Pequeno Exército de Loucos, um média-metragem de 1984 sobre a revolução sandinista, produzido quando estava em exílio na Nicarágua, após sair da prisão no Brasil, onde foi vítima da tortura. Enquanto Ainda Estou Aqui estreou internacionalmente no Festival de Veneza, Que Bom Te Ver Viva foi lançado no Festival de Toronto. Longe da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles, nos Estados Unidos, em 1989 o filme venceu o Festival de Brasília nas categorias Melhor Atriz, com Irene Ravache no papel da protagonista ficcional, Melhor Filme pelo Júri Popular e Melhor Filme.

Apesar das diferenças históricas e geográficas que determinaram a produção, a circulação, a recepção e até mesmo o reconhecimento de cada obra, há um ponto em comum: retratam as vidas possíveis para mulheres diante de algumas violências cometidas pela Ditadura Militar e o impacto disso em suas famílias. No Que Bom Te Ver Viva, um filme que mistura artifícios do documentário com a ficção, todas as personagens são femininas. A produção é baseada nos testemunhos de 8 mulheres que sobreviveram à tortura, com características de um documentário, mas há uma personagem ficcional, interpretada por Irene Ravache, que traz uma tensão para a narrativa elaborada por meio dos relatos. Já em Ainda Estou Aqui, uma ficção baseada em fatos reais, a protagonista interpretada por Fernanda Torres é Eunice Paiva, esposa de Rubens Paiva, engenheiro e político perseguido, morto sob tortura e desaparecido pela Ditadura Militar, e mãe de cinco filhos.

Ambos os filmes tratam da maternidade que emerge sob os escombros da violência, da luz que é dada aos filhos em meio à escuridão, de nascimentos após morrerem. Eunice Paiva foi uma mãe cuja vida foi atingida por um terremoto em razão da ausência repentina de seu parceiro. Toda a estrutura de seu edifício familiar – emocional, psicológico, burocrático, financeiro – foi abalada, colunas vieram abaixo. Tornou-se filha novamente ao deixar o Rio de Janeiro (RJ) e ir para São Paulo (SP), ficando perto de sua mãe. Voltou a estudar, trabalhou como advogada, foi o esteio de sua família. E na dor de um silêncio profundo que trava o choro na garganta, liberou o sorriso nos lábios, gesto eternamente marcado na icônica cena em que recusa o pedido do repórter fotográfico que registrava o desaparecimento de Rubens Paiva para a imprensa internacional, seguindo as instruções do editor, para que não sorrissem. Cinco filhos, diferentes idades, diversas demandas, níveis de maturidade díspares, e uma só mãe que, apesar de tudo, queria – precisava? – vê-los sorrindo para continuar, para seguir aqui.

Em Que Bom Te Ver Viva, sete mães – oito, contando a própria diretora, Lúcia Murat -, e uma perplexidade: passados mais ou menos 20 anos da tortura, de vivências violentas de agressão sexual, de machucados intrauterinos, de maldições de que “filhos dessa raça não deveriam nascer”, de abortos, gestações, partos, amamentações dentro da prisão… Como ser mãe? Como nutrir a vida, proporcionar e experimentar o futuro? Como narrar-me diante de meus filhos em meus episódios dessubjetivantes e ressubjetivantes, como mostrar-lhes a mulher que o destino fez sua mãe? E como não fazê-lo? Seria justo, ou mesmo possível, não transmitir-lhes uma herança intergeracional que, de todo modo, lhes pertence?

No território que extrapola as quatro linhas da tela, percebemos que os dois filmes falam de algo ainda mais valioso: da herança de um valioso anel entre tempos, símbolo da aliança de uma geração com a próxima. Ainda Estou Aqui traz a inédita estatueta do Oscar para o Brasil, e repetiu a indicação de mãe (Fernanda Montenegro, 1999) e filha (Fernanda Torres, 2024) na categoria Melhor Atriz. Também amplificou a comunicação da persona de Eunice Paiva, retratada em obra homônima de seu filho, Marcelo Rubens Paiva, que escreveu – e inscreveu – sua mãe em folhas de papel como resistência à dissipação de sua memória, atacada pela Doença de Alzheimer. Em Que Bom Te Ver Viva, o amor e o saber-fazer do cinema também foram legados de Lúcia para Júlia Murat, que tinha seus 5 anos de idade no lançamento do longa, e tornou-se autora de Histórias que Só Existem Quando Lembradas, lançado no Festival de Veneza em 2011, assim como o Ainda Estou Aqui. Das mulheres que narraram-se para o filme, destaco Regina Toscano, que é avó, e até hoje está militando com jovens e imbuída e “envivecida” da tarefa de transmitir esse anel.

Não escolhemos onde vamos nascer, em quais condições, em quais famílias. Na vida, um dia comum pode ser comum até tornar-se absolutamente trágico. O contrário também acontece: podemos passar anos em uma situação péssima, abusiva, tóxica, violenta, sermos quebrados e feitos em cacos e, no futuro, convidados à saúde. O rotineiro acordar e o projeto de simplesmente atravessar mais um dia no calendário pode anteceder um acontecimento capaz de mudar tudo o que acontecerá dali em diante (e dali para trás), instaurando um novo tempo. E não só para uma pessoa, mas para todo o grupo ao qual ela pertence, até mesmo para toda uma sociedade, como acontece no caso de um golpe de Estado, ou na promulgação de uma nova Constituição Federal. Quando fazemos história, tocamos não só enredos vazios, mas preenchidos de gente. Gente que encontramos nas ruas – ou somos encontradas – e que dizem Que Bom Te Ver Viva…, e que respondem – ou respondemos – Ainda Estou Aqui.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Disponível em: https://movimentorevista.com.br/2025/03/ainda-estou-aqui-no-oscar-2025-um-marco-historico-para-o-cinema-brasileiro-e-a-memoria-nacional/