Num cenário gastronômico animado pelo 26º Festival de Comida di Buteco – que, desde 2000, se consolidou como o principal concurso de bares e petiscos do Brasil, com edições em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte – é oportuno deslocar o olhar para histórias e memórias de botecos que permanecem à margem do circuito metropolitano¹. A história da comida de boteco é marcada por uma fusão cultural que entrelaça, nas cozinhas, raízes indígenas, africanas e europeias. Surgidos como pequenos estabelecimentos comerciais de bebidas e petiscos, os botequins transformaram-se, com o tempo, em pontos de encontro social, onde a comida e a bebida não apenas nutriam, mas também serviam como suporte para o compartilhamento de memórias, sabores e tradições. A comida de boteco é, assim, uma expressão vibrante da diversidade brasileira, cada prato carrega traços das raízes regionais e de técnicas transmitidas de geração em geração.
Ao retirar o foco das principais capitais e metrópoles do país, encontram-se igualmente botecos e botequins de grande riqueza cultural, que ilustram o vasto acervo patrimonial brasileiro construído nas cozinhas como lugares de sabor e sociabilidade regional e nacional. O Bico da Coruja, em Macaé, é um caso especial que merece atenção: ao aliar a sardinha na pressão, preparada de forma simples e inesquecível, à roda de choro que há décadas ecoa em suas paredes, o botequim se firma como um patrimônio vivo da cultura macaense, onde a memória afetiva da culinária se funde à memória musical de figuras como Benedito Lacerda.
Em uma época em que a gastronomia frequentemente se rende a estéticas meticulosamente produzidas para as redes sociais, o Bico da Coruja, em Macaé², se ergue como um contraponto vivo e pulsante. O estabelecimento, que celebra mais de quatro décadas de história, não é apenas um bar; é um patrimônio cultural imaterial da cidade. A sua resistência à “modernização” e à “gourmetização” não é um acaso, mas uma filosofia de preservação da autenticidade.
Este texto propõe uma reflexão sobre como a simplicidade, representada pela sardinha e pelo atum na pressão, se torna um potente veículo de memória afetiva, conectando a culinária, a música e as histórias de vida de pescadores e músicos de Macaé, tendo como pano de fundo a figura icônica de Benedito Lacerda.
O Bico da Coruja, localizado na rua que homenageia o grande chorão Benedito Lacerda, é descrito como um espaço “pequeno, estreito e com paredes que respiram histórias”. Não há luxo, não há ostentação. A proposta do proprietário, Wallace, é clara: “o Bico é assim! Pequeno, acolhedor e autêntico”. Esta autenticidade se manifesta de forma mais sublime em seu cardápio. Enquanto a gastronomia contemporânea se perde em técnicas complexas e apresentações rebuscadas, o Bico oferece “atum e sardinha na pressão, preparados de forma simples, mas inesquecível”.
A escolha desses ingredientes não é aleatória. A sardinha e o atum são peixes historicamente associados à alimentação simples, à mesa do trabalhador e, em Macaé, à cultura pesqueira local. Sua preparação na panela de pressão – um método que reduz o tempo de cozimento e amacia os ossos, valorizando o sabor do mar – é a antítese da alta gastronomia. É uma técnica que fala de praticidade, de comida de verdade, de sabor que não precisa de firulas para ser lembrado (Altoé, 2020). Nesse sentido, a iguaria do Bico não é apenas um prato; é um manifesto contra a complexidade desnecessária, um resgate de uma culinária afetiva que se conecta diretamente com as memórias gustativas da cidade.
Para entender o poder da “sardinha na pressão” do Bico da Coruja, é preciso ir além do paladar. A comida é um dos veículos mais poderosos da memória afetiva, capaz de transportar um indivíduo no tempo e no espaço, conectando-o a pessoas, lugares e emoções. A simplicidade do prato é o que permite essa conexão. Ele não tenta ser o que não é; não se veste de novidade para impressionar. Ele simplesmente é.
Quando um frequentador do Bico da Coruja senta-se para saborear o atum ou a sardinha, ele não está apenas comendo peixe. Ele está revivendo, talvez inconscientemente, a história de vida de pescadores locais, a tradição de uma cidade litorânea e a cultura de um povo que tem no mar sua fonte de sustento, identidade enquanto patrimônio cultural vivo (IPHAN, 2024). O prato se torna um elo entre o passado e o presente, entre a história de Macaé e a experiência individual de cada cliente. É essa memória afetiva, ancorada na simplicidade, que transforma uma simples refeição em uma experiência inesquecível e profundamente enraizada no lugar.
A resistência à gourmetização no Bico da Coruja encontra seu par mais perfeito na música. Assim como a culinária ali é simples e autêntica, a roda de choro que acontece no local é um espaço de partilha, improviso e tradição. O choro, gênero musical que é a “alma” da música popular brasileira, é complexo em sua estrutura, mas nasce da rua, da roda de amigos, da espontaneidade. Ele é o oposto da produção musical industrializada e pasteurizada, da mesma forma que a sardinha na pressão é o oposto do prato gourmetizado.
A música e a culinária se unem no Bico da Coruja para criar uma experiência sinestésica. A melodia do cavaquinho e do bandolim, o ritmo do pandeiro, a harmonia do violão e a improvisação dos músicos se misturam ao aroma e ao sabor do peixe simples. Esta combinação “reforça a identidade afetiva do espaço”, criando um ambiente onde a cultura popular se manifesta em sua forma mais genuína e integrada. Não é apenas um bar que toca música ao vivo, nem um restaurante que serve comida simples. É um organismo cultural vivo (Correa, 2018).
O fato de o bar estar localizado na Rua Benedito Lacerda é simbólico e carrega um peso histórico fundamental para essa reflexão. Benedito Lacerda, flautista e compositor macaense, foi um dos maiores nomes do choro brasileiro, parceiro de Pixinguinha. A homenagem em forma de logradouro não é um detalhe; é a âncora que ancora a identidade do Bico à história cultural da cidade.
Ao resistir à modernização, Wallace³, o proprietário, não está apenas preservando um negócio; ele está mantendo viva a chama de um legado cultural que poderia se perder em meio ao ruído da contemporaneidade. A roda de choro que ali acontece não é apenas um evento; é a continuação de uma história que tem em Benedito Lacerda um de seus capítulos mais importantes. O Bico da Coruja se torna, assim, um ponto de encontro onde a memória do músico e a memória da cidade se encontram, alimentadas pela música e pelo sabor das iguarias simples que são servidas com a mesma dedicação com que se toca um chorinho⁴.
Em um mundo que nos empurra para o excesso, o hermetismo e a ostentação, o Bico da Coruja é uma lição de sabedoria e resistência. A opção pela simplicidade, tanto na música quanto na mesa, não é uma falta de opção; é uma escolha consciente e, por isso, profundamente política. É a defesa de um modo de vida que valoriza a essência, a tradição e a memória em detrimento da efemeridade do modismo.
O atum e a sardinha na pressão, preparados “de forma simples, mas inesquecível”, são a metáfora perfeita para esse espaço. Eles simbolizam a resistência à gourmetização que muitas vezes descaracteriza a culinária regional em busca de um “status” que pouco diz sobre a alma de um povo. Ao mesmo tempo, a roda de choro que ecoa em suas paredes é a trilha sonora dessa resistência, um “refúgio para a alma” em tempos de ruídos vazios (Sartori, 2021).
Portanto, celebrar as quatro décadas do Bico da Coruja é celebrar a força da cultura popular, a importância da memória e a beleza insubstituível de um prato simples feito com história, servido ao som de um chorinho. É um tributo a todos os pescadores, músicos e cidadãos comuns que, como Wallace, entendem que o verdadeiro sabor da vida não está na complexidade dos ingredientes, mas na autenticidade de um encontro, onde a mesa farta, a música boa e a alegria genuína são os únicos condimentos necessários.
NOTAS:
[1]O Festival Comida di Buteco foi criado em 2000 em Belo Horizonte com o objetivo de valorizar bares familiares e a “comida de raiz” brasileira, tornando-se um movimento nacional que celebra a gastronomia de boteco.
[2] Rua Benedito Lacerda, 134, Centro
[3] Wallace Francisco Agostinho (conhecido como Chorão, proprietário do Bar Bico da Coruja).
[4] 43 anos do Bico da Coruja: um patrimônio vivo da cultura macaense: https://macaetips.com/43-anos-do-bico-da-coruja-um-patrimonio-vivo-da-cultura-macaense/ Acesso em: 18 ago. 2026.
Referências: ALTOÉ, Isabella; AZEVEDO, Elaine de. Among ingredients, cuisines, and affects: sociocultural aspects of a life dedicated to food. Revista Ingesta, São Paulo, v. 2, n. 1, p. 251-273, 2020. Disponível em: https://revistas.usp.br/revistaingesta/pt_BR/article/view/167758.
CORRÊA, Alexandre Fernandes; MOREIRA JÚNIOR, Diógenes Antônio. No bico da coruja: samba, resistência cultural e subjetividades em Macaé/RJ. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais, Uberlândia, v. 15, n. 2, p. 1-16, jul./dez. 2018. Disponível em: https://www.revistafenix.pro.br/revistafenix/article/view/387.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL – IPHAN. Choro. Brasília, DF: IPHAN, 2024. Disponível em: https://bcr.iphan.gov.br/bens-culturais/choro/.
SARTORI, Anderson; CRUZ, Rosana Arruda; TRICARICO, Luciano. Memória Afetiva Alimentar: Um Conceito para o Desenvolvimento de Experiências para o Turismo Gastronômico. Rosa dos Ventos – Turismo e Hospitalidade, Caxias do Sul, v. 13, n. 4, p. 1008-1027, 2021. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/4735/473569973004/html/.
Discografia: SONGBOOK Benedito Lacerda: clássicos do choro brasileiro. Rio de Janeiro: Choro Music. ISBN 9788564726093.
LACERDA, Benedito; OLIVEIRA, Darcí de. É de amargar. Intérprete: Ademilde Fonseca. Benedito Lacerda e seu Regional. [S.l.], 1944. 1 disco sonoro (78 rpm)
LACERDA, Benedito. Dinorah. Intérprete: Garoto. Regional. Rio de Janeiro: Odeon, 1950. 1 disco sonoro (78 rpm), lado A, faixa 1
NAZARETH, Ernesto; OLIVEIRA, Darcí de; LACERDA, Benedito. Apanhei-te cavaquinho. Intérprete: Benedito Lacerda e seu Conjunto. [S.l.], 1942. 1 disco sonoro (78 rpm).
SEVE, Mário; GANC, David. Choro duetos: Pixinguinha & Benedito Lacerda. [v. 1 e 2]. Rio de Janeiro: Irmãos Vitale, 2010.
Créditos na imagem de capa: ChatGpt
