Nascida no Rio de Janeiro, Brígida Baltar (1959–2022) construiu sólida trajetória na arte contemporânea brasileira ao investigar as relações entre corpo, espaço doméstico, tempo e natureza. Em projetos como Abrigo e a série de Coletas, a artista subverte o que nos parece óbvio por meio da fabulação, operando na tênue linha entre o efêmero e o tangível. Em sua trajetória artística, transitou por entre diferentes materiais e suportes, tendo se tornado figura relevante para a escultura transitória.

Alguns dos trabalhos mais importantes da artista, como os acima citados, começaram com tentativas de se colecionar o (quase) intangível: poeira, orvalho, neblina. A obra de Baltar teve papel central na emergência de um conceito que chega até nós por entre diferentes formas e abordagens: o da fabulação. O termo remete ao ato de se propor a encontros com a imaginação, com a ficção e com a invenção. Nas artes visuais, a fabulação testa os limites da intangibilidade, e que melhor exemplo para refletir sobre as suas potencialidades do que a neblina?

Algo perto, algo longe. Na série Coletas, Baltar confere ênfase especial à neblina. E não por acaso. Este fenômeno natural, presente em romances, filmes e em outras artes na forma simbólica do mistério, da incerteza e do misticismo, invade a realidade tangível e nos transporta. A vida nos traz momentos em que sabemos o que existe além da neblina, embora não seja tempo de ver. Há, portanto, outras dimensões das concepções de corpo, de paisagem, de tempo e de sensibilidades implícitas na prática da coleta. Nos colocamos de frente para o efêmero em uma busca pelo perene. Os pequenos frascos nas costas da artista guardam um pouco do mundo a cada passo. E, assim, o tempo passa. A fabulação nos permite explorar os limites da sensação sem que a existência jamais seja negada. Baltar, em suas fotografias, não situa a figura humana como protagonista: este papel pertence às coisas imperceptíveis, quase não lembradas. Ainda assim, a sua presença é a alma do trabalho: através da dança e da contemplação, Baltar nos convida a refletir:

Quanto mais o tempo passa, mais somos capazes de fazer escolhas. Eu sinto isso. Existem muitos estímulos no mundo, em toda parte, o tempo todo e parece que cresce cada vez mais o acesso a infinitas possibilidades. Na verdade, não dá tempo para tudo. Na vida e na arte.1

Na obra da artista, encontramos o acolhimento naquilo que é transitório, que quase nos passa desapercebido. Tempo e escolhas são uma constante em trabalhos como os de Ana Kemper, sobre o qual já falei em outro momento. A natureza aparece, em Baltar, como uma mediadora desse duplo movimento de introspecção, onde a fabulação se torna crítica, e a crítica se transforma em práticas tangíveis. Fazer escolhas com o tempo que se tem é imprescindível (e sim, aqui me lembro da obra de Tolkien, responsável por me manter em relativo equilíbrio em tempos de incerteza política). Para este texto, busco chamar a atenção para a apreensão do intangível enquanto uma nova forma de se debater a temporalidade. Das heranças dos Annales, a exemplo de Jacques Le Goff, Marc Bloch e Lucien Febvre, chegamos à contemporaneidade nos aproximando daquilo que Paul Ricouer discute em seu célebre Memória, História e Esquecimento: o intangível pode ser frágil e manipulável, mas também nos dá as ferramentas para validar o testemunho e a oralidade como fontes legítimas de conhecimento histórico e como instrumentos de intervenção e escolha nos momentos de inflexão social. O intangível sobrevive como memória a partir das escolhas feitas pela sociedade. Por mais difícil que pareça o alcance, o caminho não deixa de existir. E o tempo segue seu curso.

Ao tencionar os limites entre o visível e o invisível, a poética de Brígida Baltar ecoa as reflexões de Paul Ricouer sobre a fragilidade e a força do intangível na construção histórica. Se o testemunho e a memória sobrevivem a partir das seleções operadas pelo social, a arte atua aqui não apenas como representação, mas como arquivo do sensível. Baltar demonstra que a fabulação não se esgota na ficção, revelando-se um método legítimo de apreensão do real. Ao deslocar o protagonismo humano para as coisas imperceptíveis, a artista propõe uma arqueologia do cotidiano onde a crítica se funde à prática tangível. Entre as escolhas impostas pelo fluxo acelerado do tempo e a permanência frágil da memória, a arte consolida-se como um espaço de resistência: o lugar onde o intangível ganha contorno e a história se escreve também a partir do que escolhemos reter. Ao transformar o efêmero em objeto de coleção, a artista dialoga com a historiografia contemporânea ao validar a sensibilidade e a memória como dimensões inseparáveis do conhecimento. É a partir dos pequenos gestos que se constrói a realidade, e é a partir das escolhas diárias que se vivificam as memórias que constroem a História enquanto ciência viva, crítica e decisiva em momentos decisivos.


NOTAS:

1 Trecho da entrevista de Baltar a Marcelo Campos, publicado no artigo do site Arte que acontece.


REFERÊNCIAS:

Arte que acontece. Brígida Baltar: entre o efêmero e o tangível. 23 de setembro de 2024. Disponível em: https://artequeacontece.com.br/brigida-baltar-entre-o-efemero-e-o-tangivel/ Acesso em 28 de outubro de 2026.

RICOUER, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução de Alain François et al. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.


Créditos na imagem de capa: Reprodução. Brígida Baltar, A coleta da neblina, 2002. Cortesia Galeria Nara Roesler. In: Arte que acontece, 23 de setembro de 2024. Disponível em: https://artequeacontece.com.br/brigida-baltar-entre-o-efemero-e-o-tangivel/