Éramos os mesmos, eu e você, até o momento da autópsia…

Havia ironia cênica, um colibri, nosso irrepreensível jeito de ser

Você pincelou largos passos em meu apartamento, estava escuro

e, de repente, tropeçou em uma pilha de livros próximos à cama

Jogou-se em minha direção, dedilhou a seda de um cigarro e arfou,

encostando os lábios quentes em meu pescoço, sentindo-me ímpio

 

Fiz a promessa venial de nunca mais te dedicar palavras ou ânsias

e percebi que precisaria me adaptar ao roteiro, aos receios e amassos

Ouvi suas asneiras, falei outras besteiras, não me tome por normal

e me deixe ir, remendado e incoerente, reverberando que ficarei bem

Por meio desta, a porta continuará aberta, para que ata-me se puder

e fisgue-me pelos ossos, deitando-me em seu peito, uma vez mais…

 

O tempo é irredimível, justifique se quiser, dedique-me alguns vernáculos

O que poderia ter sido será mera especulação, teatralidade ou pulcritude

e os dias vão continuar passando… De-va-gar… Depressa… Vai passar

Ao longo do claustro em que não seguimos, observo o seu holograma

Ele permanece agridoce, metafórico, questionável, bonito e nada prolixo

Fazendo-me perceber objetivos desviantes, o clima cortante, meios e fins

 

Cantei-te ‘Ro Ro’, exibindo o perigo de ser excessivamente exagerado

A ponto de obrigá-lo a enfrentar a si mesmo, meu calor, meu endereço

Rasgue-me a resposta, antes que se permita, me repita, de novo e de novo

Na ponta da língua, entredentes, expelindo as lorotas que gosto de ouvir

Dia desses, estive sentado em um banco da Matriz e senti saudade de você

Vomitei no canteiro inferior, cães passaram correndo, cansei de me polir

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Capa do álbum “Angela Ro Ro Ao Vivo” de 1993.