Eventos entre os séculos XIV e XV foram responsáveis por grandes transformações no imaginário social da Europa ocidental. A Guerra dos Cem e a instalação da Peste Bubônica, por exemplo, deram palco a cenas de devastação, mortes, fome e desesperança em relação ao futuro – o que gerou grandes traumas e novas perspectivas acerca da relação entre o ser medieval e o tempo histórico em que se inseriam. Cercados por mortes repentinas, violentas e constantes, muitos já se questionavam sobre a brevidade – angustiante – da vida terrestre.

Percebe-se, já nesse recorte temporal, o questionamento sobre a tradição intelectual que, segundo o professor Fernando Cartoga, em seu texto Ainda será a História a mestra da vida? (2006), refletia a história enquanto uma possibilidade de recordar as experiências passadas para compreender as nuances do presente e projetar um futuro melhor. Perspectiva que, por séculos do que se identifica por Idade Média Ocidental, reinou sobre as interpretações das relações humanas com o tempo e com mundo social.

De acordo com a professora Juliana Schimitt, em O estudo das Danças Macabras medievais: entre o visível, o oculto e o destruído (2017, p.235), “em uma época castigada por fomes e epidemias, era fácil um homem presenciar uma morte terrível e projetar nela, seu próprio fim”, encerrando seu horizonte às visões fatalistas, em que a morte trágica se apresenta como inevitável. Há, então, a construção de uma mentalidade, alimentada por traumas recentes, de temor e repúdio: ao passo que a figura da morte é temida, é também repudiada por ser humilhante, nojenta e repentina.

É nesse cenário que artistas de obras literárias e iconográficas utilizam de suas produções para tecer críticas ao sistema de organização feudal, assim como apresentam suas visões acerca da vida e da morte – questionando a perspectiva difundida pela Igreja de Roma. A partir do século XV, novas considerações sobre a morte são expressas em diferentes obras poéticas e imagéticas, apresentando um clima histórico de curiosidade e melancolia do momento.

Surgem expostas em locais de fácil acesso ao público, satirizando as relações dos seres humanos com a morte e com a política de dominação vigente e apresentando novas perspectivas – trágicas – sobre o processo de morrer. Com isso,

 

Uma curiosidade quase obsessiva pelo cadáver invade a arte medieval, resultando na produção de imagens e textos que devassam o corpo, insistindo em seu aspecto de deterioração – por vezes dando especial ênfase à podridão e à repugnância desse processo (Schimitt, 2017, p. 235).

 

A repugnância acerca desse processo acompanha o nojo desenvolvido pelas formas terríveis em que se encontravam os cadáveres – sobretudo daqueles afetados pela Peste. É também nessa conjuntura que obras envolvendo as popularizadas “Danças Macabras” se desenvolvem. Nascidas e desenvolvidas no ocidente medieval, as referências às Danças Macabras, à Dança dos Mortos ou à Dança da Morte apresentam diferenças conceituais pontuais, mas seus objetivos coincidem: apresentar o caminho universal, inevitável e igualitário da morte.

A Dança da Morte, geralmente intitula produções que centralizam a figura da morte em uma entidade que convida os vivos para sua dança fatal; as Dança do Mortos e as Danças Macabras intitulam as obras em que a morte se relaciona com vários outros cadáveres ou esqueletos em uma dança rumo ao óbito (Schimitt, 2017). Na inclinação do intelectual Jacques Le Goff, em A Civilização do Ocidente Medieval (1984), o cadáver ou figura esquelética, centralizado, traz à tona a morte como entidade, sendo que a Dança Macabra – e a Dança dos Mortos – seria a reunião do conjunto da sociedade em todas as suas categorias. Contudo, esses sentidos se misturam e nem todo artista seguiu essas divisões.

Diante desse ambiente saturado de medo, repugnância e fascínio pela morte, as imagens de Danças Macabras emergiram como verdadeiros espelhos do imaginário social. Não apenas retomavam o horror da devastação coletiva, mas também condensavam, em seus traços, as críticas e ambiguidades próprias do período. É nesse horizonte de sentidos que se insere a imagem da Gravura de Michael Wolgemut (1493). Ao observá-la, é possível perceber como seus elementos visuais traduzem e tensionam os aspectos históricos discutidos acima.

 

Figura 1 – “A Dança da Morte”. Gravura de Michael Wolgemut em Liber Chonicum, de Hartmann Schedel, 1493. Disponível em: https://www.idademedianaescola.com.br/livro-imagens

 

A obra (figura 1) é uma ilustração em xilogravura[1] produzida pelo artista Michael Wolgemut e integra o escopo de imagens do Liber Chronicarum[2] (1493).  Nela, observamos a reunião de esqueletos, em que três deles dançam de mãos dadas, sendo conduzidos por outra figura esquelética com um instrumento musical – a morte em sua proposta de dança fatal. O primeiro esqueleto, à direita da figura, aparenta utilizar alguns trajes mais valorizados – possivelmente representando alguma posição social mais elevada do momento. Representá-lo de mãos dadas com os outros durante o processo corrobora a perspectiva da morte enquanto universal e igualitária – independentemente de sua posição social ou econômica, todos terão o mesmo destino.

Os esqueletos dançam ao redor de um cadáver ao chão – aparentemente está saindo da cova onde foi enterrado para ser recebido. Note-se que o cadáver esquelético está se levantando e com a mão em posição de cumprimento, como se já estivesse familiarizado com a situação. Nesse ângulo, há o retrato de uma proposta: todos devem aceitar e se acostumar com o destino inevitável.

Percebe-se, então, que através da produção artística, os sujeitos construíam uma outra perspectiva acerca das suas relações com a vida e com a morte. Desenvolvem-se novos imaginários sobre o futuro: um horizonte fatal e inevitável, colocando em xeque a relação com o presente, sendo que este se torna uma preparação para o óbito repentino.

Apesar da grande popularização das obras macabras, com o passar do tempo e o advento do racionalismo moderno, essas produções foram perdendo espaço e sendo destruídas ao se tornarem “alvos do crescente pensamento racionalista que via nessas imagens medievais os resquícios de uma mentalidade supersticiosa e de uma fé antiquada” (Schimitt, 2017, p.237).

A este respeito, ainda segundo Schimitt (2017, p.238)

 

A pesquisa sobre as Danças é, portanto, altamente prejudicada por essas informações cambiantes e não comprováveis. O fato de muitas delas terem sido parcialmente danificadas ou totalmente destruídas – ou ainda por sequer terem sido redescobertas até hoje, faz com que o pesquisador resvale frequentemente nas conjecturas.

 

Desse modo, a obra de Michael Wolgemut, assim como as demais ilustrações do Liber Chronicarum, assume papel fundamental na preservação da memória medieval e no avanço das pesquisas atuais sobre esse período. Mesmo diante da ampla lacuna deixada pela perseguição e pela destruição de inúmeras fontes, materiais como esses tornam possível compreender as dinâmicas, as transformações sociais e as mudanças de mentalidade que marcaram o Ocidente medieval.

 

 

 


NOTAS

[1]A xilogravura consiste em esculpir uma imagem ou desenho em uma tábua de madeira.
As partes que ficam em relevo são as que receberão tinta. Depois, essa tábua é pressionada sobre o papel ou tecido, transferindo a imagem.

[2] É um livro de crônicas ilustrado, publicado em 1493, durante o Renascimento, na cidade de Nuremberg (Alemanha). Foi escrito por Hartmann Schedel, com apoio de Hieronymus Münzer, e ilustrado pelos artistas Michael Wolgemut e Wilhelm Pleydenwurff.

 

 

 


REFERÊNCIAS

A IDADE MÉDIA EM SALA DE AULA. Livro de Imagens. Disponível em: https://www.idademedianaescola.com.br/livro-imagens. Acesso em: 30 nov. 2025.

CARTOGA, Fernando. Ainda será a História a mestra da vida? Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 32, p.7-34, 2006.

LE GOFF, Jacques. Permanências e Novidades. In: ______. A Civilização do Ocidente Medieval. Vol. II. Lisboa: Estampa, 1984. p. 129-133.

SCHEDEL, Hartmann. Liber chronicarum. Ad… Sebaldi Schreyer et Sebastiani Kamermaister… Anthonius Koberger, 1994. p. CCLXI (261).

SCHMITT, Juliana. O estudo das Danças Macabras medievais: entre o visível, o oculto e o destruído. Revista ARA3, p.233-253, 2007.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: https://revistahcsm.coc.fiocruz.br/1564-morre-vesalius-pai-da-anatomia-moderna/