A década de 1990 foi marcada por consideráveis avanços no campo dos jogos eletrônicos, como o lançamento do Super NES pela Nintendo, o Mega-CD pela SEGA, e o Playstation pela SONY. Nesse contexto, com o aprimoramento dos motores gráficos, um gênero de jogos se sobressai: o tiro em primeira pessoa (FPS). Se tornaram sucesso de venda e de críticas os games Doom (1993), Quake (1996) e 007 Golden Eye (1997).

Contudo, esses títulos acompanham narrativas ficcionais. Inspirado na jogabilidade de 007 e na tematização histórica de Wolfenstein 3D (1992), é produzido o jogo Medal of Honor (1999), roteirizado por Steven Spielberg e dotado de diversos elementos de narrativa histórica. Ambientado na Segunda Guerra Mundial, o jogo foi um sucesso e no ano seguinte ganhou uma continuação. Medal of Honor Underground, lançado em 2000, trazia uma protagonista feminina, uma espiã francesa treinada pela inteligência estadunidense, realizando missões em territórios ocupados pelos nazistas. Suas missões iam da França, Marrocos, Grécia, Itália, Alemanha, e um retorno final à França, durante o recuo nazista.

Possivelmente influenciados pelo sucesso do game Tomb Raider (1996), por seu protagonismo feminino, é possível identificar em Manon uma série de características e influências históricas que consolidam uma espécie síntese das representações da mulher na resistência durante a Segunda Guerra Mundial. O que me leva a considerar como essas imagens dialogam, em suas características narrativas e visuais, e como tal diálogo está inserido na dinâmica das memórias da resistência francesa durante o conflito internacional.

Tal dinâmica está relacionada com a lógica da história monumental, das políticas de memória do final do século XX (o jogo foi desenvolvido durante o final da década de 1990) e das conjunturas de apropriação das narrativas históricas. Tomando de empréstimo o conceito de pathosformel para uma reflexão comparativa do historiador Aby Warburg e a noção de “honra inventada”, abordada por Denise Rollemberg, como uma concepção monumental das ações de oposição a ocupação nazista na França, é possível empreender uma discussão histórico-visual dessa obra de ficção histórica.

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Após tomar de assalto a Polônia em setembro de 1939, a queda da França pelas mãos da Wehrmacht viria meses depois, em maio de 1940. Esse intervalo entre tais agressões ficou conhecido como “guerra de mentira” (drôle guerre), dada a falta de hostilidades entre os países declaradamente em guerra. Começando um ataque pelas Ardenas, e com tropas agindo também nos Países Baixos, em apenas 46 dias as forças de defesa francesa se renderam aos invasores (visto que os italianos também invadiram pelos Alpes, ao sul da França).

A invasão da França provocou o êxodo desesperado de oito milhões de pessoas de diferentes origens sociais, em direção ao Sul. Somou-se ao êxodo já iniciado da população belga que fugia das zonas de combate e da ocupação. Pelas estradas deslocavam-se como podiam, a pé, em carroças e carros, carregando o que podiam. (ROLLEMBERG, 2016, p. 76)

O país passou a ficar dividido: a França de Vichy, regime colaboracionista; nas regiões ao norte, uma zona de ocupação e administração alemã; e a Alsácia-Lorena, tomada como território alemão.

Dessa forma, com um governo sediado em Londres e sob a liderança de Charles de Gaulle, se fundou a França Livre, organizando as ações da resistência francesa e obtendo apoio nas colônias na África. Por sua vez, na Paris ocupada, o contexto era difícil para a resistência, onde, segundo Martin Gilbert (2014, p. 297), os invasores chegaram a executar reféns em retaliação aos ataques à prédios e caminhões alemães. O cenário começa a mudar ao final do ano de 1942:

 

As forças aliadas que tentavam expulsar os alemães instalados no norte da África francês – durante a Operação Torch – constituíram até então: trezentos navios de guerra, 370 navios mercantes e 107 mil homens. Assim que as praias pareceram seguras, invadiram-nas os oficiais americanos cuja tarefa era utilizar mensagens Enigma da Força Aérea alemã. (GILBERT, 2014, p. 469)

 

Ainda em 1942, após iniciada a Operação Tocha, com a retomada da Argélia, o governo no exílio se converte em governo provisório com sede em Argel. A vitória dos aliados no norte da África levam, no ano seguinte, para a centralização das ações na península italiana. Todavia, o ano de 1944 é simbólico para a resistência francesa mediante o contexto prévio do desembarque da Normandia, em seis de junho:

 

Os atos de sabotagem recrudesciam à medida que a invasão através do canal se aproximava; em 13 de maio, em Bagnèresde-Bigorre, nos Pirineus, uma fábrica que produzia transportadores para os canhões de autopropulsão manteve-se fechada durante seis meses após um ataque de uma equipe de agentes britânicos e resistentes franceses. (GILBERT, 2014, p. 649)

 

Foram necessárias algumas semanas até que Paris fosse alcançada pelos Aliados, o que ocorreu em 25 de agosto de 1944. Os episódios destacados até aqui nesse breve panorama serviram estrutura para a narrativa de Medal of Honor Underground.

O jogo se inicia na Paris ocupada de 1942 (missão “Occupied!”), onde Manon, após uma tarefa mal executada em que perde seu irmão, atua para proteger os membros da Resistência da região. No arco seguinte (missão “Hunting the Desert Fox”), em uma operação sob disfarce, a personagem atua como fotógrafa em Casablanca a fim de destruir a artilharia antiaérea alemã para facilitar as ações aliadas durante a Operação Tocha. Após algumas missões de assalto de documentos e sabotagens em instalações alemãs, Manon retorna para a França (missão “Liberation!”), dias antes dos nazistas serem expulsos da capital.

O percurso de Manon é elaborado seguindo os arquétipos campbelianos da jornada do herói. Ela se une a Resistência após seu irmão se envolver com as unidades paramilitares. Após sua morte trágica ainda na primeira fase do jogo, Manon se aprofunda no movimento rebelde até ser captada pela OSS (Escritório do Serviço Secreto dos EUA) e ser enviada para atuar fora da França. Ao retornar para Paris na última missão, a narrativa segue um evento catártico em que ela destrói sozinha comboios da linha férrea carregados de explosivos da OSS e se vinga dos traidores culpados pela morte de seu irmão.

Dessa forma, fica evidente como a história do jogo busca personificar em uma só personagens diversos aspectos do combatente europeu. No entanto, essa sintetização parece estar associada a outro fenômeno narrativo, de ordem histórica e vinculado a uma apropriação das memórias e da guerra e da mitificação do resistentes

A principal inspiração da personagem de Manon é abertamente reconhecida, sendo citada dentro do conteúdo final do jogo: Hélène Deschamps Adams (1921-2006), atuante nas forças dos partisans franceses e pelo serviço de espionagem para os Aliados. Quando a França fora invadida pela Alemanha Nazista, Hélène abandona o convento e se une à Resistência, atuando como mensageira, elaborando relatório sobre o estado das forças alemãs, fornecendo posições de minas e armas antiaéreas. Sob disfarce, atuou na sede de Vichy embaralhado a documentação de judeus e outros combatentes, impedindo suas deportações.

 

Figura 1. Hélène homenageada por Scott Langteau, da DreamWorks (2000). Fonte: The Ringer

 

Seu esforço foi notado pela OSS (Escritório de Espionagem dos Estados Unidos) e seu empenho somou-se a de vários outros para o bem sucedido desembarque dos Aliados no Dia D:

 

Meu recrutamento em ação não foi introduzido por nenhuma burocracia, investigação, juramentos de fidelidade e outros requisitos necessários em tempos normais. Uma palavra e uma conexão feita por um conhecido líder da Resistência foram suficientes, uma vez que o patriotismo e a lealdade comprovada forneceram a recomendação inicial. Não havia tempo para verificar a história de vida de cada voluntário. Não tive nenhum treinamento especial e não tinha nenhuma educação específica. Minha habilidade de espionagem estava no meu histórico em campo, jogando um jogo perigoso com o inimigo. Recebi o codinome ANICK. (DESCHAMPS-ADAMS, 1992, p. 141, tradução do autor)

 

Em 2000 Hélène foi condecorada com a medalha por Serviços Distintos em Nova York. A mesma medalha é obtida como um prêmio final dentro do jogo, após todas as missões serem completadas. Essa é uma das estratégias que o videogame elabora para criar uma atmosfera de precisão histórica, com intuito de fornecer ao jogador um ambiente historicamente confiável, uma experiência do passado. Se soma ainda diversas passagens de cenas reais do período de guerra, mostradas nos momentos entre os níveis e missões do game, que reforçam uma estética semidocumental da narrativa virtual.

Mas conforme os próprios relatos de Deschamps, a mesma não chegou efetivamente a pegar em armas, ou mesmo agir de forma incisiva em termos de violência. Dessa forma, é possível elencar outras influências históricas na construção visual e narrativa de Manon enquanto figura guerreira, de posturas belicosas. Essa perspectiva está na conta das alusões a Simone Segouin (1925-2023). Simone ficou reconhecida pelas forças clandestinas com o pseudônimo de Nicole Minet, atuando em missões de sabotagens, danificando as linhas férreas usadas pelos alemães e capturando soldados inimigos.

Segouin se juntou em 1944 às forças da Francs-Tireurs et Partisans, grupo de resistência liderado pelo Partido Comunista Francês. Contudo, após a invasão da Normandia em seis de junho, as ações do grupo se aglutinaram entre os militares e demais civis franceses, principalmente durante a liberação de Paris, onde alemães remanescentes atiravam contra os populares em celebração. Sobre o 25 de agosto daquele ano Martin Gilbert comenta:

 

Às 14h30, o comandante alemão de Paris, general Von Choltitz, rendeu-se. E, às 16h, o general De Gaulle chegava à cidade, abrindo caminho entre uma densa multidão até o Hôtel de Ville. O dia de trinfo cobrou seu preço: mais de quinhentos combatentes da resistência haviam sido mortos durante a libertação de Paris, além de 127 civis. Na exaltação da liberdade recuperada, muitos entre os que colaboraram com os alemães foram mortos sem julgamento ou possibilidade de defesa. (GILBERT, 2014, p. 718)

 

Robert Capa, fotojornalista húngaro reconhecida por sua cobertura durante o desembarque dos Aliados na Normandia, fotografou Segouin em Paris durante a confusão daquele dia. Capa registra a jovem francesa se protegendo em busca de abater os atiradores alemães escondidos entre os prédios da cidade:

 

Figura 2. Simone Segouin, aos 17 anos de idade, portando uma metralhadora alemã entre outros dois combatentes (1944). Fonte: ICP/ LIFE MAGAZINE

 

A primeira imagem é oficialmente de autoria de Capa, porém a segunda não consta no acervo digital da ICP (onde se encontra o trabalho visual do fotógrafo), sendo atribuída a ele por diversos jornais, dada a proximidade com a fotografia anterior. Em ambas, vemos Segouin portando uma MP40, uma metralhadora tradicional do exército alemão. A vestimenta à paisana indica sua atuação como independente das forças oficiais, além de sua bermuda reforçar sua jovialidade.

Outro elemento simbólico é a bandeira da França Livre no braço do terceiro personagem, na parte direita da imagem. A bandeira portava a Cruz de Lorena ao centro, chamada também de Cruz da Libertação, cuja variação com um V de Vitória se assemelha a uma âncora. Essas visualidades estão expressas em Medal of Honor Underground (MOHU), mas se consolida a seguinte questão: de que forma o jogo se insere no campo de disputas das memórias da guerra?

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A historiadora Denise Rollemberg constrói, em seu livro Resistência: memória da ocupação nazista na França e na Itália (2016), um ensaio analítico onde versa sobre as narrativas de memoriais e museus sobre os movimentos de resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. A autora parte da concepção dessas instituição como documento/monumento, conceito desenvolvido por Jacques Le Goff, pautando duas características preponderantes: a função informativa e a função comemorativa:

Pautando MOHU nessa mesma perspectiva, visto ser um produto de intencionalidade narrativa (ancorada, mas não limitada pelos registros históricos), é possível identificar essa dupla funcionalidade em seu conteúdo. Obviamente não se trata de lidar o jogo como um “museu virtual”, visto que sua finalidade enquanto produto dessa categoria é o de entretenimento.

Rafael Bezerra e Christiano Monteiro (2019) elaboram uma análise da franquia de Medal of Honor seguindo também o conceito histórico de monumento. Os autores pautam sua investigação considerando os jogos (e se inclui MOHU) como monumentos digitais, visto que as narrativas imbuídas nos games se aproximam das práticas que envolvem tanto a criação como a preservação de monumentos.

 

Os games da série Medal of Honor são estruturados em representações gráficas e códigos de reconhecimento relacionados com a história da Segunda Guerra Mundial. Para além da historiografia, podemos destacar que o conteúdo exibido é carregado de valorações nacionalistas e mitos de fundação nacionais americanos com elementos voltados para uma visão histórica bem específica e que de forma alguma dá conta da complexidade que é a sociedade estadunidense. (BEZERRA; SANTOS, 2019, p. 125)

 

É válido salientar que a franquia de Medal of Honor surge após a produção de O Resgate do Soldado Ryan, tendo o próprio Steven Spielberg como criador e idealizados dos jogos. Dessa forma, a franquia herda uma série de elementos narrativos ufanistas e de mitificação dos Aliados (especialmente os estadunidenses). O próprio filme, dentro do escopo que José D’Assunção Barros define como filme de ambientação histórica, está circunscrito em uma lógica de monumentalização.

Ainda que discorra em uma linguagem de documentário, com cenas que intercalam as fases e missões da narrativa, é notável que o MOHU assume uma posição monumento digital de função comemorativa. Essa função, inclusive, se concatena com os ganhos obtidos pelo jogador a medida que cumpre com excelência os objetivos de cada etapa. O prêmio final do jogo é justamente a Distinguished Service Medal, a mesma medalha com a qual Hélène Deschamps é condecorada (Imagem 1).

Nesse sentido, MOHU pode ser encarado como um produto componente de um amplo esforço ideológico de mitificação, substancialmente vinculado ao ideário do “excepcionalismo estadunidense”, através de diferentes categorias de imagens. No entanto, ao presente trabalho o que interessa são as visualidades que dizem respeito à protagonista do jogo, Manon.

O jogo é permeado de imagens onde a personagem figura com o rosto oculto ou pouco visível, no caso, as imagens que surgem como telas de carregamento entre as fases bem sucedidas ou falhadas. Essas figurações estão todas inseridas na capa do disco da trilha sonora do jogo, como uma espécie de mural visual:

 

Figura 3. Encarte do cd Medal of Honor Undergounrd: music composed by Michael Giacchino (2000). Fonte: Wikipédia

 

A capa do disco, o quadro a direita do encarte, mostra Manon centralizada empunhando uma metralhadora alemã MP40 (o mesmo modelo que Simone Segouin portava). Ao fundo, o Arco do Triunfo, elemento icônico de Paris e preponderante na imagem, que a utiliza como uma moldura para a figura central. O monumento é também um memorial das guerra napoleônicas, e por ele desfilaram os exércitos alemães com a capitulação em 1940, e depois os Aliados em 1944. Sua presença na imagem torna potente o caráter narrativo-visual de conquista a ser alcançado por Manon.

Quanto as demais imagens do lado esquerdo do encarte, elas retratam diferentes momento da narrativa: a esquerda, a imagem no topo figura Manon invadindo um castelo nas montanhas alemãs; abaixo, a personagem em uma posição de aclamação, em cima de um tanque em chamas; e mais abaixo, Manon dispara contra inimigos enquanto um caminhão pilotado por seu irmão avança, segundos antes de ser morto em emboscada. No topo a direita, a imagem representa a captura de Manon não missões que o jogador fracassa. Em sequência, Manon dispara contra tanques nas missões do deserto africano; e abaixo desta temos Manon em um side-car de uma motocicleta, portando uma metralhadora.

Nesse conjunto se destaca uma característica em comum: o rosto de Manon não aparece. Mas as formas visuais perpetuam os elementos inaugurados por Spielberg e sua visão fabulosa da Segunda Guerra Mundial:

 

Através de imagens, que imitam o concreto, Spielberg atinge um conjunto de valores que compõem uma imagem mental dos heróis. O homem comum é transportado para o universo do herói, um novo indivíduo é fabricado. Nesse ponto de vista, a Segunda Guerra é tratada como fabulosa, as pessoas são lançadas para um super foco e vistas como as autoras de todo este brilhantismo. (BEZERRA; SANTOS, 2019, p. 129)

 

A celebração de uma memória mítica é construída em MOHU, mas não em cima do soldado estadunidense, extraordinário e justo, que Icles Rodrigues denominou de “soldado-messias”. No caso aqui analisado temos um exemplo de um monumento digital constituído por elementos que Denise Rollemberg definiu como “honra inventada”. Mais profundamente, é possível elencar tal videogame como uma herança discursiva do “mito da resistência”, por muito tempo aceita por alguns historiadores.

 

No que diz respeito ao uso da Resistência francesa como referência para pensar outras experiências contemporâneas e também posteriores à Segunda Guerra Mundial baseou-se menos na experiência concreta (história), e mais na memória sobre ela, construída no calor da Libertação e nos anos seguintes. Ocorre que essa memória ancorou-se, sobretudo, no ideário da Resistência gaullista, que não dá conta da diversidade dos projetos, culturas e famílias políticas envolvidas no confronto com as forças de ocupação e colaboração. As histórias das Resistências identificadas com outras referências e valores, igualmente vitoriosas na Libertação do país do domínio estrangeiro, foram engolidas pela memória gaullista. (ROLLEMBERG, 2016, p. 39)

 

MOHU sintetiza essa monopolização da memória da resistência na figura de Manon, através de um saudosismo dos tempos de guerra e da construção do arquétipo de um só tipo de resistência, a armada. Tal forma resistente sequer coaduna com a experiência da pessoa que alude à protagonista, Hélène Deschamps, que atuou majoritariamente de forma furtiva. Uma análise comparativa se faz, então, necessária:

 

Figura 4. Fotografia de Simone Seguoin, do National Archive (1944); detalhe do pôster de Medal of Honor Underground (2000). Fonte: National Archive; Wikipédia

 

Tomando o conceito de pathosformel de Aby Warburg, que pode ser traduzido como “fórmula da paixão”, o que temos no caso acima é a manutenção visual/gestual da mulher guerreira idealizada pela memória da Resistência. Por isso, a necessidade de enfatizar que a existência factual de Seguoin, bem como sua notável atuação no MAQUIS, não traduz as diversas experiências das resistentes francesas (como a da própria Deschamps).

Cabe salientar que a pathosformel, objeto de estudo de Didi-Huberman, Philip-Alain Michaud e de diversos outros pensadores e pensadoras das artes, encontra nas imagens de guerra um campo prolífico, vide o consistente trabalho de Leão Serva A Fórmula da emoção na fotografia de guerra (2020). O autor traduz a pathosformel como “gestos feitos por personagens em cenas que expressam sentimentos universalmente reconhecíveis” (SERVA, 2020, p. 38-39).

A combatente empunhando a arma em forma de ataque é o gestual chave que demarca essa mitificação da resistência centralizada na postura diretamente bélica. No caso da representação de Manon, além do Arco do Trinfo reforçar a dimensão tanto memorialista quanto da própria guerra, se soma ao exército nazista marchando a seu redor, em direção ao centro do arco (algo que possivelmente não ocorreu, pois, sendo um símbolo Napoleônico, o desfile de militares adentrando pelo centro do arco era proibido).

A iconografia em torno do game corrobora a visão de que a obra está inserida em um campo de disputas de memórias, da mesma forma que museus, monumentos, historiografias e cinematografias também estão circunscritos nessa dinâmica. MOHU assume uma abordagem mais comemorativa do que informativa, pois seu roteiro se caracteriza como uma ficção histórica.

O game é a extensão de um projeto memorialista aprofundado no cinema, através de O Resgate do Soldado Ryan, porém com uma nova roupagem: em MOHU já não se trata de mitificar o soldado estadunidense, mas sim de sacralizar a memória da resistência francesa. Uma tradição monumentalista que se coaduna com diversas representações narradas pelos museus e memoriais franceses.

 

 

 


REFERÊNCIAS:

BEZERRA, R. Z.; SANTOS, C. B. M.. Medal of Honor: a história monumental em narrativas lúdicas. Museologia & Interdisciplinaridade, [S.L.], v. 8, n. 15, p. 122-137, 14 maio 2019. Biblioteca Central da UNB. http://dx.doi.org/10.26512/museologia.v8i15.24671.

DESCHAMPS-ADAMS, Helene. BEHIND ENEMY LINES IN FRANCE. In: CHALOU, George C. (ed.). The Secrets war: the office of strategic services in world war ii. Washington, Dc: National Archives And Records Administration, 1992. p. 140-164.

GILBERT, Martin. A Segunda Guerra Mundial: os 2.174 dias que mudaram o mundo. Rio de Janeiro: Casa das Palavras, 2014.

ROLLEMBERG, Denise. Resistência: Memória da Ocupação Nazista na França e na Itália. São Paulo: Alameda Editorial, 2016.

SERVA, Leão. A fórmula da emoção na fotografia de guerra. Edições SESC: São Paulo, 2020.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: SPIELKRITIK.com (Games. Kultur. Kritik.)