“A vida tem muita coisa ruim, mas tem coisa boa também.”
(Dona Sebastiana)
Aguardei o fim dessa coisa toda do fim de semana de Oscar para poder enaltecer O Agente Secreto como ele merece. Não porque ele precise disso, pois angariou quase sessenta prêmios a essa altura, e o tal Oscar não é absolutamente necessário nessa lista. Mas porque acho que ele não é filme para ganhar Oscar mesmo, e vou tentar argumentar sobre isso adiante. E em segundo lugar porque eu acho que isso é algo bom, muito bom! E os prêmios já conquistados pelo filme já consolidaram isso.
Posso estar enganado, mas temos aqui o primeiro filme longa-metragem brasileiro de grande circulação que, de fato, mostra o lado empresarial (e civil) da Ditadura Empresarial-Militar brasileira de maneira absolutamente evidente. Se for possível identificar um vilão nessa história, este seria o empresário do ramo da Engenharia Henrique Ghirotti, responsável por roubar as pesquisas dos acadêmicos sobre o carro elétrico e mandar “fechar” o Departamento e demitir os professores e professoras de uma universidade pública, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele, sim, um agente (nada secreto) do setor privado que se autoproclama representante dos interesses da Eletrobrás (não aparece no longa, mas o então presidente da estatal era o médico, empresário e político baiano Antônio Carlos Magalhães, o ACM, franco apoiador da Ditadura e vinculado ao ARENA). Ghirotti é um típico capitalista, ou um “capitão da indústria”: homem branco e rico “sudestino”, cínico, perverso, degenerado, inescrupuloso, autoritário, privilegiado, misógino, um ignorante no discursinho meritocrático “pra inglês ver” (que ignora que um homem de ascendência indiana pode ser britânico), e odeia a coisa pública e exala o odor típico do que se convencionou chamar de shark thank, enfim, e como diz Marcelo/Armando: “um merda”. Sem dúvida, mas um merda com meios, fundos e contatos diretos com um regime violentíssimo, repressor, autoritário, sem qualquer senso de republicanismo, e capaz de tudo para destruir a família, o trabalho, a vida e a reputação de um professor-pesquisador apenas por sua vaidade e ganância pessoal. Mas não é só por isso que o filme de Kleber Mendonça Filho não leva estatuetas. O próprio vencedor de melhor ator (contra Wagner Moura) foi Michael B. Jordan com um filme de vampiros que se deseja abertamente anticapitalista (o quanto está aberto para interpretação). Assim, temos dois filmes em que os elementos do horror estão presentes. A Academia não tem favoritismo por esse gênero, aliás nunca teve. No caso de O Agente Secreto, é mais suave e nuançado que Pecadores.
A “exploitation” típica dos filmes da década de 1970 é muito suave em O Agente Secreto. Gostaria de destacar a cena hipersexualizada da praça onde ocorrem encontros sexuais entre pessoas do mesmo sexo e/ou mulheres trans (isso é importante, porque em geral as vítimas nesse tipo de filmes eram as mulheres cis) até na sacada muito espirituosa do elemento sobrenatural e fantástico da Perna-Cabeluda “zumbi”. Esse elemento é importante por dois motivos. Primeiramente, o modo como a mídia retratava esses crimes contra a população local. No caso do longa especificamente às pessoas LGBTQIA +, usando uma “perna-cabeluda decepada” como agente sobrenatural. Tratava-se de um meio de noticiar e fazer sensacionalismo – um tipo de jornalismo pinga-sangue muito popular na época, e isso sem dar nomes aos verdadeiros criminosos (os assassinos). Fosse por motivo de censura, ou por medo de represálias dos verdadeiros criminosos (em geral os gambé), havia também um interesse editorial imenso na venda de jornais com estas manchetes. O filme sugere que esse tipo de crime (supostamente justificado no imaginário moralista católico dos “cabras-macho” por forças sobrenaturais) poderia ser imputado como obra de pessoas como “doutor” Euclides, o delegado da Civil, que adorava dar seus “passeios” com presos (que seriam sumariamente executados), e celebra o número de mortos no Carnaval, mais de noventa, tal como noticiado pelos mesmos jornais, em sua torcida para que “passassem de cem”, como se fosse um recorde pessoal.
Em segundo lugar, porque os jornais compreendem parte do acervo documental analisado pela jovem pesquisadora Flávia, que é quem aparece como sugestão no coser desta trama complexa e repleta de lacunas. Penso que a imagética da Perna-Cabeluda, que muitos acharam “nada a ver” no filme, foi um ponto importante da trama para a reunião dos tempos entre passado (memória registrada de Marcelo/Armando), o presente (a pesquisa de Flávia que articula esses elementos) e o futuro (de Armando – no caso, seu filho Fernando). A história da perna-cabeluda não faz realmente muito sentido para alguém que não é pernambucano, reforçando o elemento local. Mas ali ela acaba desempenhando um papel de espectro, uma assombração, ou o zumbi – o morto-vivo – como paradigma cinematográfico para fazer a ponte entre o realismo da história e o fantástico da busca por um acerto de contas com o passado não resolvido, ou “traumático”. Por fim, pois a pesquisa fictícia de Flávia dialoga com outras pesquisas que reforçam que o mito de que a Ditadura só perseguia “bandidos”, “vagabundos”, “militantes”, “esquerdistas”, “comunistas”, “baderneiros” etc., é um mito fabricado pela mesma Ditadura. A perseguição era geral e contava com todos os esteios de gente inescrupulosa como empresários, empreiteiras, construtoras entre outros, como na tese de Pedro Henrique Campos “Estranhas Catedrais: as empreiteiras brasileiras e a Ditadura Civil-Militar (1964-1988)”.
Flávia é paulistana, mas tem parentes em Pernambuco, logo, a Perna-Cabeluda não seria estranha como parte do folclore e da história de Pernambuco. A imaginação e a intuição da pesquisadora se aguçaram pelas notícias e a violência no período, levando-a de volta ao caso do Professor Armando. Algo que somente as fitas de áudio não permitiam identificar. Foi através dos jornais que ela identificou o triste fim de Armando, e ao procurar contar a sua história ou pelo menos reunir elementos para que essa história se tornasse conhecida. Além disso, a orientação ética de Flávia, mesmo afastada dos arquivos por ordens superiores, foi a de procurar Fernando Solimões, filho de Armando e Fátima. Agora um homem crescido, formado, trabalhando no mesmo local onde antes ficava um cinema de rua, onde seu avô o levou para assistir ao filme Tubarão. Homem envolto num manto de trauma e esquecimento, que silencia sobre a vida de seus pais, que se vê diante da possibilidade de reencontrar a voz e refazer a memória de seu próprio pai, assassinado pela violência de um regime de militares e civis canalhas, e poder, enfim, enlutar seu progenitor. O próprio filme não diz se ele de fato o fez ou o fará. Essas aberturas e ambiguidades são para os espectadores.
Assim, acho que, por todas essas co-incidências, não é um filme fácil de traduzir pra gringo ou que gere empatia imediata da “Academia”. Mostra o empreendedor como o canalha. Mostra o tipo de liberalismo endossado pelos EUA no seu apoio à Ditadura como vilão. Mostra um tipo de violência e arbítrio que agentes armados e sancionados pelo Estado podem exercer sobre a população de um país. E o clima de medo e angústia que os próprios estadunidenses estão tendo de vivenciar neste exato momento sob o segundo governo Trump não deve ser moleza, principalmente com o olhar de superioridade que eles mantêm em relação a América Latina. Mostra que os horrores deles são dignos de premiação, mas só os deles.
O filme deixa as pontas soltas mesmo. Os arcos dos personagens não são resolvidos. Isso é importante, porque o filme não deseja resolver para o espectador aquilo que não pode ser resolvido. As ambiguidades e contradições, os antagonismos, são todos elementos de uma trama que serve de alegoria para uma sociedade dividida, entre o passado e presente, entre passado e futuro, entre o presente e o não-futuro, entre a memória e a história, entre o trauma e o luto, entre o esquecimento e a história, entre a memória e a nostalgia.
Assim, eu não acho que premiações como o Oscar sejam importantes. Mas não o faço por “torcer contra o filme”, como alguns xiliquentos fazem por aí. Pelo contrário, é por ter gostado muito do filme ao ponto de fazer essa pirraça por ele. E tenho uma leve intuição de que os representantes da produção estavam lá na cerimônia do 98º Oscar por isso: pirraça! E faz todo sentido que seja assim. Oscar faz sentido lá nos “istêitis”. Contudo, acho um tipo de premiação anacrônica e absolutamente imperialista, no sentido de ser e se manter “América para os americanos” (estadunidenses e canadenses) e, depois, o resto. Acho que serve aos interesses de uma indústria cultural multibilionária dos grandes estúdios de Hollywood e não tem nada ali que seja remotamente atraente ou digno de celebração da sétima arte. Oscar é uma cerimônia chata, longa, ritualística, cafona e que evidencia a decadente sociedade estadunidense que sofre com seu pseudouniversalismo cultural (liberal-burguês) e finge “tolerância” (categorias como Melhor Filme Estrangeiro ou Internacional, ou coisas do tipo), enquanto mantém-se firmemente “EUA-cêntrica”.
Sim, eu entendo que se trata de negócio. Cinema não se faz mais só com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. E sim, o cinema hollywoodiano estava em cartaz, sutilmente, no próprio filme de Kleber Mendonça Filho, como A Profecia (Um Oscar), King Kong (um Oscar), Tubarão (três Oscar) etc., todos agraciados com as suas estatuetas apesar de a Academia ser muito reticente quanto a premiar filmes de terror. Assim, eu entendo tudo isso como pirraça (das boas!) de Kleber Mendonça Filho e Companhia. O filme não deseja ser beligerante ou afrontoso aos colegas da sétima arte, até porque foi distribuído através de parcerias internacionais e declarar guerra assim seria um negócio arriscado. Mas o filme faz pirraça! E quem faz pirraça, não leva Oscar pra casa.
Assim, eu acho que O Agente Secreto não é um filme para Oscar. E isso é ótimo! Seus méritos cinematográficos são muito maiores do que os critérios mais ou menos pré-fabricados por uma indústria situada no coração sombrio do capitalismo brutal e do imperialismo mais inclemente que existe. A Academia celebra anualmente sua cultura enquanto se sente vindicada por discursos cronometrados e palavras de ordem de celebridades com roupas de gala, e de todo tipo: mais ou menos honestas, mais ou menos engajadas, mais ou menos sinceras, ou apenas oportunistas e hipócritas. O próprio mundo do cinema estadunidense coleciona histórias reais de horror, crimes, assédios, perseguições, e segue perpetuando e acobertando violências e ignomínias, aliás, desde o nascimento de Hollywood. Como poderia uma celebração da arte em meio às guerras e ao horror que os EUA estão levando ao seu próprio povo e ao mundo, capitaneados por Israel, ter a ver com premiar um filme como O Agente Secreto? O Agente Secreto não é “universal” neste sentido de não se enquadrar na estética do universal que impera nos EUA e sua Academia, mas pode fazer pirraça! Ele pode criar um vínculo entre o lá e o cá, apesar de contar uma história exótica pra caramba e sem filtro amarelo dos latinoamericanos, que traz um drama com o qual muitas pessoas de lá podem se identificar.
Marcelo/Armando não é um “agente” (ou espião). Ele foi empurrado à clandestinidade por ter sido incriminado e perseguido como subversivo. É um filme situado (majoritariamente) no ano de 1977, auge da repressão e da Ditadura no Brasil. Ou seja, era o tempo da Doutrina de Segurança Nacional, em que o estado de guerra total estava imposto pelo Regime. Assim, a “guerra” não seria contra inimigos externos ao território brasileiro, mas era travada aqui mesmo, contra um inimigo infiltrado e invisível. Logo, a lógica da repressão definia que qualquer um poderia ser o inimigo ou o “agente secreto”. Qualquer um poderia ser preso, perseguido, vilanizado ou morto em nome da segurança nacional. Fosse ou não “inimigo” a justificativa estava pronta a priori e/ou a posteriori. Desde o uso caricato e adjetivo do termo “comunista” (uma espécie de insulto ou desqualificação genérica) para perseguir alguém “suspeito”, como termos genéricos para dar cabo da vida de algum “subversivo” lançado ao mar, para virar comida de tubarão no litoral pernambucano.
Porém, o filme não me parece tradicionalmente local-querendo-ser-universal, como tantos outros, e não está localizado, portanto, nos grandes centros urbanos “sudestinos” que poderiam fornecer o pano de fundo urbano necessário para esse tipo de estratégia. Ele sequer lida com os militares no Governo ou nas ruas, salvo o retrato com a foto oficial do Geisel nas repartições públicas. Isso desloca a expectativa do espectador que aguarda por um “filme de Ditadura” e que mais ou menos já se sabe quem é o “vilão” e quem são os perseguidos. O filme se passa em Pernambuco, durante o Carnaval de 1977, e não no Rio de Janeiro, ou São Paulo, ou Belo Horizonte, ou Curitiba, ou Porto Alegre, etc. As referências demográficas, os tipos, os sotaques, os elementos culturais são totalmente pernambucanos. As forças policiais são da Polícia Civil, não da Polícia Militar. Não há tanques, fardas, capacetes, cassetetes ou coturnos, salvo em passagens muito rápidas em que alguns soldados da PM aparecem nas ruas do Carnaval de Olinda. Os pequenos poderes e os guardinhas civis ocupam lugares muito importantes na trama. O pistoleiro Augusto é um ex-militar da banda podre da Ditadura. O tipo de gente que tinha orgulho da farda, dotado de um patriotismo cínico, difuso e sádico que, sabemos, servirá aos infames esquadrões da morte, os pais dos milicianos. Isso tudo desloca (ou espera deslocar) o espectador do conforto de sua própria imaginação sobre “filmes sobre a Ditadura Militar” para uma história repleta de “co-incidências” e pirraças, nas costuras, nos fios e nos ingredientes que fazem dele um filme ao mesmo tempo denso, pesado, violento e delicado – algo que a indústria cultural estadunidense não poderia jamais premiar num filme latino-americano.
Mas tanto visualmente quanto na trilha sonora e no subtexto, com o cinema local lucrando muito a partir dos filmes estadunidenses, o horror se faz presente sem ofuscar outras referências, como o “neo-noir” – que se expressa no ritmo do filme, nos diálogos, o clima do lugar, que não é apenas cenário, é personagem também. O suspense no thriller de perseguição, o drama da clandestinidade, todos esses elementos se fundem ao clima de medo constante e a rotina de uma população, em parte, resistente e solidária aos perseguidos, em parte indiferente com o achincalhe, as muitas formas de violência, os subornos, os pistoleiros e demais aberrações, por vezes até cúmplice. Todos são sujeitos complexos, ninguém é exatamente culpado, nem totalmente inocente. As respostas não vêm, muitas perguntas ficam em aberto e exigem de nós pesquisa, tempo, interesse para construção de um sentido.
Assim, o filme, de fato, é repleto de “pirraças” – no sentido da gíria pernambucana de uma provocação, ou implicância, picuinha, insistência, comportamento teimoso que força o outro a se mexer, pensar ou a agir. As dicotomias ou antagonismos deixam bem evidentes os dispositivos da alegoria de uma sociedade dividida ontem e hoje. Um passado não resolvido, apenas esquecido, enterrado, ou jogado aos tubarões. Mas o passado insiste em nos provocar e retorna como Perna-Cabeluda Zumbi, das entranhas do tubarão morto. Lembrando que as muitas violências, ontem e hoje, bem como as estratégias de denegá-las ou resistir a elas, e que configuram o cotidiano desta sociedade na qual quem manda é quem tem o dinheiro, nunca é de fato passado se não o enfrentarmos e não dermos um lugar devido a ele no mundo. Vira assombração.
Quando sublinho as muitas formas de violência presentes na trama, refiro-me ao sexismo, ao racismo, a xenofobia, a homofobia, etc., pois esse elemento é o que reúne os clandestinos/refugiados na casa de Dona Sebastiana. Uma improvável residência de resistência e proteção sob guarida de sua estupenda anfitriã e sua fantástica gatinha “dupla face”, Lisa e Elis – ela também personagem de dupla-identidade. Dona Sebastiana não se recorda se foi anarquista ou comunista primeiro, mas do coração desta ambiguidade nos rende uma frase que sintetiza a esperança do povo brasileiro, que escolhi como abertura desta resenha. Cuja coragem e solidariedade aos perseguidos, vítimas dessas violências todas, faz-se sem dúvida um ponto alto deste filme. Sem fazer muitas perguntas, sem dizer adeus, a casa da esperança se constrói com tijolos de hospitalidade, solidariedade e contra todas as formas de violência. Sejam as violências do regime brutal encabeçado por Generais e seu secto hediondo de empresários, ou de maridos brutamontes, ou de pais homofóbicos, ou a perseguição contra refugiados da Guerra Civil Angolana.
Créditos na imagem de capa: Divulgação.
Andre de Lemos Freixo
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Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
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