Refletir sobre o papel da comédia na atualidade não pode contornar pontos nevrálgicos, especialmente sua relação com o poder e as transformações que tem sofrido na contemporaneidade. Talvez recorrendo a um roteiro mais esquemático, usando como fio condutor a ideia de que a comédia não é apenas entretenimento, se possa atingir o aspecto visceral da questão: de que forma seu declínio pode ser um termômetro da saúde democrática e das tensões sociais de nossa época?
O que é Comédia? Na definição clássica, a comédia é um gênero artístico que visa entreter e provocar o riso por meio da representação de situações, costumes ou personagens de forma humorística. Sua origem remonta à Grécia Antiga, onde as peças cômicas eram uma ferramenta de crítica e influência na opinião pública, especialmente na democracia ateniense.
Aristóteles (2010), em sua Poética, definiu a comédia como a imitação de “homens piores que a média”, focando no “ridículo”, que seria um erro ou deformidade que não causa dor. Com o tempo, o termo se expandiu para além do teatro, abrangendo qualquer obra (no cinema, TV, livros, stand-up) que use o humor como ferramenta principal. A sátira, a paródia e a comédia de costumes são algumas de suas formas mais recorrentes, muitas vezes usadas para expor as contradições e hipocrisias da sociedade.
Entrementes, por que a comédia gera desconfiança nos poderosos? A relação entre a comédia e o poder é intrinsecamente conflituosa porque a comédia tem a capacidade de desmascarar e relativizar a autoridade. Através do riso, pode expor a fragilidade, a hipocrisia e a corrupção de figuras e instituições poderosas. Como observou o teórico literário Kenneth Burke (1997; 1998), a comédia pode funcionar como uma “moldura cômica” que, ao satirizar uma circunstância, promove a reflexão e a mudança sem necessariamente recorrer ao discurso panfletário.
O poder, por sua natureza, busca ser levado a sério e de forma inquestionável. A comédia, ao ridicularizar o poder, quebra essa aura de solenidade e o submete ao escrutínio público. É por isso que regimes autoritários e governantes com tendências antidemocráticas historicamente tentam censurar ou controlar o humor. A comédia age como um contrapoder, lembrando que “o rei está nu”.
Todavia, o que explica o desaparecimento do formato mais coletivo da comédia na mídia em contexto neoliberal? No panorama cômico brasileiro, é perceptível o desaparecimento de programas como os de Jô Soares, Chico Anysio, Casseta & Planeta, Zorra Total, etc., em favor de um humor mais individualizado e, em certa medida, menos crítico. Tal quadro social encontra respaldo em análises sociológicas (Cannito, 2025; Donian, 2018; Holm, 2017; Lamy, 2024; Webber, 2018). A principal razão apontada é a consolidação de um “humor neoliberal” na TV privada.
Sendo assim, quais são as características do humor atual? Um primeiro aspecto a se destacar é o individualismo exacerbado. O neoliberalismo, como ideologia, promove uma cultura sem culpa e sem ressentimentos, centrada no indivíduo e em seus “direitos civis” (de expressão, de consumo, de comportamento). O humor, então, deixa de mirar as estruturas sociais e econômicas para focar no indivíduo e em seus hábitos de consumo, tornando-se “politicamente correto e ecologicamente consciente”, mas vazio de crítica social mais profunda.
Outro aspecto é um certo ataque ao “anacrônico”. Nessa nova lógica, tudo que remete a direitos sociais, políticos e econômicos (como a luta de classes ou a crítica ao sistema) é tratado como “anacrônico” e se torna alvo de deboche. O humorista, muitas vezes um jovem de classe média, assume o papel de um ‘Chicago Boy’ da cultura, auto-confiante e narcísico, que ri do que considera ultrapassado, mas sem questionar o status quo que o beneficia.
Destaca-se também, neste cenário, o moralismo seletivo. Os programas como o extinto CQC são exemplos desse fenômeno. Eles utilizavam um “ímpeto moralista de denunciar” a corrupção política, mas o faziam de uma forma que, em vez de promover uma reflexão sobre o sistema, muitas vezes servia para fortalecer a crença de que a política é inerentemente corrupta e que a salvação está no indivíduo e no mercado, e não na ação coletiva.
Por conseguinte, como corolário de um processo dialético testemunha-se o triunfo do enclausuramento da comédia no stand-up individualizado. O stand-up comedy, como formato, é um reflexo e um produto dessa mesma lógica individualista. As dicas para quem quer fazer stand-up frequentemente enfatizam a autenticidade e a visão de mundo pessoal do comediante, o que é positivo, mas também apontam para uma estrutura de produção de baixo custo e altamente dependente da figura individual.
Enquanto um programa como o de Jô Soares ou Chico Anysio exigia uma grande estrutura de roteiristas, atores, cenário e uma diversidade de quadros e entrevistas, o stand-up pode ser feito por uma pessoa com um microfone. Isso se alinha perfeitamente com a precarização e a “flexibilização” neoliberal do trabalho, no qual o artista é um empreendedor de si mesmo (self-made man), sem o suporte e o filtro crítico de uma redação coletiva. O espaço para a sátira institucional e a comédia de costumes mais ampla, que refletia a diversidade da sociedade, se reduz à perspectiva de um único indivíduo.
Encontra-se, assim, as razões para o enfraquecimento da comédia na grande mídia. É possível sintetizar as razões para o fenômeno descrito em alguns pontos. Primeiramente, na concentração midiática e interesses comerciais, quando a grande mídia é controlada por poucos grupos econômicos que têm interesses alinhados com o poder estabelecido. A comédia que questiona as bases desse poder (como o domínio neoliberal) tende a ser preterida em favor de um humor “leve” e inofensivo, que não afaste anunciantes ou desafie a ordem. Paralelamente, recrudesce a cultura do “politicamente correto” versus liberdade de expressão. Desenrola-se um debate complexo sobre os limites do humor. No entanto, a análise do “humor neoliberal” sugere que o discurso do “politicamente correto” é, por vezes, usado seletivamente para silenciar críticas ao sistema, enquanto certos preconceitos estruturais (contra minorias, por exemplo) são perpetuados sob o disfarce de “humor sem limites”. Por fim, a fragmentação da audiência e novas plataformas. A internet fragmentou o público. A grande comédia televisiva de outrora era endereçada para uma audiência massiva e heterogênea. Hoje, os nichos se espalham por plataformas de streaming e redes sociais, o que torna mais difícil o surgimento de fenômenos unificadores e com grande poder de pauta como foram os programas citados.
Causa perplexidade a ausência de obras como o Satyricon descrevendo com perspicácia e argúcia as cenas flagrantes da decadência de um império carcomido, como se descortina atualmente. A comparação com o Satyricon, de Petrônio, é extremamente pertinente. Esta obra-prima da literatura latina é uma sátira corrosiva e sem piedade da Roma de Nero, retratando a vulgaridade, a corrupção e a falta de valores de uma sociedade em decadência através das aventuras de personagens marginais.
A dificuldade em produzir algo análogo hoje reside em ao menos dois fatores principais: a) A tarefa da crítica de enfrentar as estruturas de poder contemporâneas (o “império” neoliberal) é mais difusa e complexa do que crítica à figura de um imperador. Criticar estas estruturas exige um arcabouço intelectual que a comédia rasa e individualista do stand-up muitas vezes não alcança; b) O predomínio do assédio, cooptação e controle em uma era de “império em decadência”, através de um enorme esforço dos poderes estabelecidos para controlar a narrativa e neutralizar as críticas. A comédia, quando não é silenciada, é muitas vezes cooptada e transformada em mercadoria, esvaziando seu potencial subversivo. O “pânico imperial” parece se adequar à análise sobre a decadência neoliberal ao descrever um ambiente de maior intolerância à crítica, tratando qualquer sátira mais profunda como um ataque a ser reprimido (Peckham, 2015).
Todavia, não se trata de um fenômeno exclusivamente brasileiro, pois espalha-se na sociedade mundial. Ele está inserido em uma transformação global do capitalismo e da cultura. O que se assiste no Brasil é uma manifestação local de uma tendência internacional, moldada pelas particularidades de nossa história e de nosso mercado midiático.
No entanto, o Brasil tem características que potencializam esse processo, como a histórica concentração da mídia e a forma como a ditadura civil-militar utilizou a TV -especialmente a Rede Globo – para forjar uma identidade nacional e difundir valores, inclusive através do humor. A resistência a esse modelo, percebido na ausência de programas como os das décadas finais do século XX, é um sintoma da luta entre diferentes projetos de sociedade e de comunicação que se trava em escala global.
Em suma, o “silenciamento” da comédia que se observa hoje é, na verdade, uma transformação de sua função social. De uma ferramenta de crítica e reflexão coletiva, ela tem sido empurrada para a vala do entretenimento individualista e da confirmação de valores estabelecidos, refletindo a vitória de uma visão de mundo que não quer ser questionada. A volta de uma comédia corrosiva e socialmente relevante, ao estilo de um Jô Soares ou de um Petrônio, depende, portanto, da retomada da capacidade de imaginar e lutar por alternativas a essa ordem.
REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. Poética. 8. ed. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2010. (Obras Completas de Aristóteles, v. 8).
BURKE, Kenneth. Actitudes hacia la historia. Valencia: Universitat de València, 1997.
BURKE, Kenneth. La filosofía de la forma literaria. Puebla: Universidad Autónoma de Puebla, 1988.
CANNITO, Newton. Cenas da terra chata: humor anti woke. São Paulo: Matrix, 2025.
DONIAN, Jennalee. Taking comedy seriously: stand-up’s dissident potential in mass culture. Lanham: Lexington Books, 2018.
HOLM, Nicholas. Humour as politics: the political aesthetics of contemporary comedy. Londres: Palgrave Macmillan, 2017.
LAMY, Antonio. Mixto quente: abordagem crítica, com humor, à economia política. São Paulo: Viseu, 2024.
MEREDITH, George. Ensayo sobre la comedia. Buenos Aires: Losada, 1945.
PECKHAM, Robert. Empires of Panic: Epidemics and Colonial Anxieties. Hong Kong: Hong Kong University Press, 2015.
PETRÔNIO. Satíricon. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
WEBBER, Julie A. (org.). The joke is on us: political comedy in (late) neoliberal times. Lanham: Lexington Books, 2018.
Créditos na imagem de capa: Máscaras tragicômicas do antigo teatro grego representadas no mosaico da Vila Adriana Disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tragic_comic_masks_-_roman_mosaic.jpg
O REI ESTÁ NU, MAS A PLATEIA SE CALA: A Comédia como Sintoma da Decadência de um Império.
Alexandre Fernandes Correa
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Journal of Theory and History of Historiography
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