Dedicado aos meus amores-amigos em agradecimento à crença nos meus sonhos e por sempre esperançarem a minha vida.

 

Reaprender a sonhar/ Você verá que é mesmo assim/ Que a história não tem fim/ Continua sempre que você/ Responde sim à sua imaginação/ A arte de sorrir/ Cada vez que o mundo diz não.[1]

 

Com Sol e chuva[2] sonhava o jovem que abandora o ideal revolucionário ofertado pela juventude guerrilheira. Ele queria ser o grande herói das estradas, mas deixara isso para depois. Tudo que ele queria ser ficara para depois, porém ainda havia potência em seus sonhos. Ele os queria ou ainda os quer? Ele tem medo, hesita em seguir em frente, mas isso fica em segredo. O rapaz só pensa em voltar atrás do que já foi percorrido. Recuar. A imagem do líder da Revolução Mexicana, Emiliano Zapata, desapareceu de seus sonhos. Seu ídolo é tudo que ele devia ser, mas, para isso, era preciso aprender a lidar com o medo.

O rapaz nem se lembra de seus sonhos nem fala sobre eles. Tudo que ele podia ser parecia ter sido interrompido. Ele ainda podia ser o grande herói das estradas? No final, isso não importa, não há mal. Ele ainda pensa e é melhor do que nada. Agora ele precisa tentar alguma coisa, ele ainda consegue contribuir com alguma coisa, ou acabará em insignificância. Ainda há esperança.

*****

A canção Tudo O Que Você Podia Ser, que inaugura o canônico álbum Clube da Esquina (1972), é comumente catalogada entre as “canções de protesto” da ditadura militar brasileira de 1964. É fato que esta música carrega a principal marca histórica de seu tempo, contudo, enquadrá-la apenas como um manifesto político é limitante. A presente análise toma essa obra como um ponto de partida para propor que a produção musical do período ditatorial não foi apenas política, mas serviu, igualmente, como um dispositivo de resistência afetivo-existencial dos sujeitos violentados pelo horror do regime autoritário. O investimento na arte representou, para parte da juventude artística militante, um movimento tão político quanto subjetivo, canalizando esperança em um cenário onde outras formas de engajamento estavam tomadas pelo medo.

Em 13 de dezembro de 1968, data que marca a promulgação do Ato Institucional n°5 (AI-5), Márcio Borges, mineiro de Belo Horizonte e letrista do grupo de amigos autodenominado Clube da Esquina, tinha 22 anos e era um dos muitos jovens organizados com o movimento estudantil da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Inclinado para o cinema, Márcio ficara apaixonado pelo Cinema Novo e ainda fora diretor de programação do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais, sendo apelidado de “Godard” pelos seus amigos, em menção ao famoso cineasta Jean-Luc Godard[3]. Semanas antes de compor a faixa de abertura do álbum Clube da Esquina (1972), o jovem cinéfilo havia exibido e assistido ao filme Viva Zapata! (1952), que retrata a travessia revolucionária do campesino mexicano Emiliano Zapata pela Revolução Mexicana. Tal história deixara Márcio fascinado e inspirado, como se pudesse haver um paralelo entre a trajetória do protagonista do longa-metragem e a luta da juventude oposta à ditadura militar iniciada em 1964.

Nesse período, após o AI-5, alguns estudantes e demais jovens engajados com o movimento estudantil abandonaram uma certa resistência “pacífica” apresentada até então e adotaram ações armadas, organizadas em guerrilhas[4]. A convite da amiga Dilma Rousseff, estudante de Ciências Econômicas na UFMG e futura presidente da República brasileira, Márcio participava de reuniões (clandestinas) da Organização Revolucionária Marxista Política Operária (POLOP). Escondido de sua família, Márcio auxiliou em alguns planejamentos da Organização, mas foi descoberto por sua mãe, Maricota Borges, que o impediu de continuar frequentando as assembleias e o trouxe de volta às artes.

Márcio planejava entrar, de modo concreto, para o movimento guerrilheiro, de extrema clandestinidade, mas, com o alarme de sua mãe, desistiu deste sonho. Um de seus tios era coronel do Exército e recebera informações a respeito dos planejamentos do jovem idealista, seu nome já estava sob ciência da polícia política: “Se você desaparecer, eles vão chegar a você através de seus irmãos. Eles vão pegar um por um até você aparecer. Esta é a ameaça que está pairando sobre a nossa casa”, disse sua mãe. Após receber o recado, Márcio foi ao aparelho onde se encontrava com os amigos da POLOP e contou o que estava acontecendo à Dilma. Esta fora a última vez que Márcio se encontrou com sua amiga, durante aquele período. Impedido pelos dois lados de ter contato com a clandestinidade – tanto pela família quanto pela própria Organização – Márcio decidiu que faria da música a sua revolução.

Iniciei meu texto contextualizando os acontecimentos que antecederam e que proporcionaram a criação da canção Tudo O Que Você Podia Ser, primeira composição e faixa de abertura do álbum Clube da Esquina (1972). A presente escrita é fruto de inquietações a respeito da historiografia acerca das músicas compostas ao longo da ditadura militar de 1964, sobretudo àquelas compostas nos chamados “anos de chumbo”, que compreendem o período em que o AI-5 se manteve em vigor (1968-1979, com pico até 1974). É comum que algumas músicas deste período sejam limitadas ao título de “canções de protesto” ou sejam interpretadas como se tivessem a clara pretensão de promover um embate, unicamente, contra a ditadura.

Eu trouxe o exemplo de Márcio Borges com a finalidade de ilustrar que os artistas produziam músicas por causa e, também, apesar da ditadura. Além disso, quero demonstrar que a música era um artefato de resistência não apenas política, mas uma resistência que se punha contra as dores do espírito (existenciais) do sujeito que a produzia. A angústia e a imaginação do extermínio de si era algo a ser combatido.

Márcio relata, em entrevista concedida ao produtor musical Clemente Magalhães no podcast Corredor 5[5], que, após se desligar da POLOP, encontrou na música o seu “fronte de batalha”. Milton Nascimento, preocupado com uma potencial perseguição e um sequestro contra Márcio, incentivou que o amigo compusesse para os festivais cancioneiros, a fim de colocá-lo em evidência para evitar a violência policial. Como uma consequência positiva, Toninho Horta, enquanto intérprete, foi selecionado com a canção Nem é Carnaval, composição dele em parceria com o amigo Márcio, no Festival Internacional da Canção (FIC).

O pensador David Hume, em sua filosofia empirista, apresenta a ideia de que a incerteza gera o medo e a esperança, duas paixões de notável influência em nossa existência: o medo da morte e a esperança na dinâmica da vida. Destas duas paixões, surge a motivação para a vontade de agir, que se manifesta por meio da mente ou do corpo; no caso analisado, a vontade de Márcio foi contemplada por meio da música, portanto, através de uma experiência corporal que afetou seu tempo histórico[6]. Dividido entre a clandestinidade e a música, Márcio escolheu a segunda opção, abandonando o medo da morte e acolhendo a esperança em um horizonte de expectativas mais aberto. Nesse sentido, é possível perceber que a música foi a principal catalisadora para um caminho mais esperançoso e entusiasmado em meio à atmosfera amedrontadora causada pela ditadura militar.

Ao reconstruir o contexto que envolve a composição de Tudo O Que Você Podia Ser e parte da trajetória de Márcio Borges durante a ditadura militar, o presente texto procurou evidenciar que a produção musical daquele período não precisa ser reduzida a uma leitura estritamente política e institucional. Em meio ao medo, à repressão e à interrupção de projetos individuais, a música emerge como um espaço de elaboração subjetiva e de reorganização da experiência histórica. A escolha de Márcio Borges pela criação artística, em detrimento da militância armada, revela uma forma específica de agir no mundo, na qual a resistência se manifesta não apenas como enfrentamento direto ao regime ditatorial, mas, também, como afirmação da vida diante da ameaça constante da violência. Aqui, a música se apresenta como a arte do possível.

Por fim, Tudo O Que Você Podia Ser pode ser compreendida como a expressão sensível de um tempo marcado pela incerteza, em que o futuro se apresentava fragmentado e instável. A canção não se configura como um manifesto explícito de oposição, mas como um registro das tensões internas vividas por uma geração que teve seus sonhos interrompidos e precisou reelaborar seus horizontes de expectativas. A música, assim, atua como mediadora entre o medo e a esperança, preservando a potência do sonhar e abrindo lugar para a continuidade do agir histórico, mesmo em um contexto amedrontador e desesperançoso.

 

 

 


Notas:

[1] Guilherme Arantes, Jon Lucien. Brincar de Viver. Brincar de Viver, Polydor Records, 1999.7

[2] Lô Borges, Márcio Borges. Tudo O Que Você Podia Ser. Clube da Esquina, Odeon Records, 1972.

[3] BORGES, Márcio. Os sonhos não envelhecem: histórias do Clube da Esquina. 7ª ed. São Paulo: Geração, 2011.

[4] MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Sobre a violência repressiva estatal: uma resposta proporcional à violência da esquerda? In.: Passados presentes: O golpe de 1964 e a ditadura militar. Rio de Janeiro: Zahar, 2021, p. 174-198.

[5] Entrevista disponível em: https://youtu.be/cJSstyXE3BA?si=TwFBJj-Ke02mzUFd. Acesso em 20 de dez. de 2025.

[6] CUNHA, Mateus Aragão da; RIBEIRO, Laiz Fidelis. O Sentido Moral presente no Ensaio “Da Supertição e do Entusiasmo”, de David Hume. Polymatheia, v. 18, n. 01, p. 01-24, 2025.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Cafi