Livraria Compagnie, número 58 da rue des Écoles, há alguns passos do square Michel Foucault situado no jardim de entrada do Collège de France. Sexta-feira, 17 de abril. Após percorrer as prateleiras da filosofia, da história e dos estudos de gênero e teorias queer, pergunto à livreira sobre a obra que buscava. Na dúvida se seria compreensível pedir as “mémoires de Nobody”, indago a respeito do “último livro de Paul Preciado”. Imediatamente ela me indica o balcão onde se encontrava o volume. Não tenho dúvidas de que, caso tivesse feito a primeira escolha e explicado com mais detalhes o que buscava, certamente o resultado seria o mesmo. Mas, para apressar as coisas, cortei caminho e sem maior hesitação desloquei a autoria do texto de N. O. Body para o nome de Paul B. Preciado. Uma violência, talvez? Mas o fato de a livreira sequer refletir e logo apontar para o balcão mostra que era algo compartilhado: ele poderia sim ser reconhecido como sendo um livro do filósofo espanhol.
A capa é a mesma que abre todos os livros da conhecida coleção. A cor creme de fundo, o nome do autor em maiúsculas na cor preta mais ao alto e, poucos centímetros abaixo, o título grafado com a mesma fonte em vermelho. O que o distingue de outros livros da mesma coleção é o fato de tudo isso estar situado logo acima de um suivi de que traz, então, nas mesmas cores, com a mesma fonte em maiúscula e do mesmo tamanho, o nome Paul B. Preciado e o título Mon nom est Body (“Meu nome é Body”). Os dois nomes de autores compartilham o espaço: o de Body está situado a um dedo da margem superior e, se considerarmos o sentido costumeiro da leitura de cima para baixo, é a primeira coisa a ser lida; mas o nome de Preciado se localiza justamente no meio da folha, numa espécie de puctum da imagem gráfica da capa. Embora o olhar possa ser involuntariamente direcionado ao centro da imagem, é difícil estabelecer uma hierarquia entre os dois nomes: mais adequado, quem sabe, seria assumir alguma forma de coabitação de autores numa mesma obra. Afinal, seus respectivos textos ocupam praticamente o mesmo espaço da brochura: 131 páginas para o primeiro, 117 para o segundo.
O ensaio do filósofo começa, logo após algumas estrofes de um poema de June Jordan, com duas páginas e meia de uma espécie de preâmbulo em que, antes de Body, é a experiência pessoal de Preciado que é mencionada. Neste curto espaço de texto, a palavra eu (je) aparece pelo menos nove vezes e, se considerarmos ainda as flexões pronominais em primeira pessoa, o número de referências a si mesmo sobe para quinze. Mas a economia do texto é interessante: se no início há um claro predomínio do je, na parte final, após um breve intermédio em que o impessoal on (a gente) ou a terceira pessoa lui (ele) emergem, é o nous (nós) o que prevalece. Preciado definitivamente fala de si, mas faz questão de inserir Body e tantos outros nomes (como o de Abel Barbin, por exemplo) sob o abrigo de um nós que atravessa os tempos e os espaços. Essas duas páginas e meia foram das últimas inserções de texto do filósofo, algo que não existia nas versões iniciais da obra.
Essa insistência na primeira pessoa e essa pletora do Eu no ensaio certamente devem incomodar quem se afeiçoa pelo ideal de impessoalidade recomendado ao texto acadêmico. Porém, é preciso reconhecer que isso causa certo embaraço inclusive em leitoras ou leitores menos ortodoxos. Afinal, de quem realmente se trata na leitura daquele livro, Body ou Preciado? É bem verdade que a justificativa é dada algumas páginas mais a frente: “nossa história é a história da negação de nossa existência. Contá-la em primeira pessoa é afirmar que existimos no seio e contra uma epistemologia que nos nega”. Por outro lado, quem é esse nós que encontra no texto um abrigo tão naturalizado, reunindo experiências distintas e distantes como as de Barbin (em meados do século XIX), as de Body (na virada do século XIX para o XX), as de Preciado (fins do XX e início do XXI)? Para uma historiografia cismada com a ordem cronológica, essa junção de diferentes tempos poderia certamente causar algum desconforto. Mas, deixando possíveis cismas de lado, a pergunta se Barbin e Body aceitariam fazer parte desse nós e se essa imposição não seria outras das tantas violências discursivas contra ambos denunciadas pelo próprio filósofo não é de todo despropositada.
Preciado realmente transita sem grandes preocupações entre períodos como se formassem um todo relativamente homogêneo, uma totalidade cujos traços são definidos pelo capitalismo patriarcal, pela colonialidade e pelo binarismo sexual. Como sugere ele, as Mémoires carregam em si um tempo já passado, mas são também o prenúncio de um tempo ainda por vir. “N. O. Body é, ao mesmo tempo, nosso antepassado (ancêtre) e nosso contemporâneo”. Estando impregnadas de tempo, parecem não estar em tempo algum ou, quem sabe, estão efetivamente em todos os tempos. Há, obviamente, uma força retórica importante nessa estratégia discursiva, uma carga política pensada justamente como ação em nosso presente, tempo por excelência da reflexão do filósofo, como ele próprio insistiu em sua intervenção na livraria Violette & Co. Portanto a afirmação de Comb de que Preciado projeta sua própria experiência para o contexto de Body (o que não significa simplesmente ler o passado com os olhos do presente) não é um mero exagero. E, se o cruzamento de fronteiras temporais não é por si só um problema, por vezes essa projeção nos desperta mesmo algumas inquietações políticas e teóricas.
Para o filósofo, “o texto de N. O. Body concentra, mais de um século mais tarde, todas as questões de nossa época”. E, levando em conta o que é dito em seguida, somos advertidos de que todas as nossas questões atuais giram exclusivamente em torno do sexo, da sexualidade, da imposição ou da assunção de identidades sexuais. Não é necessário ir muito longe para encarar com estranheza essa posição: basta abrir o jornal diariamente e ler o que se passa em diferentes regiões do planeta e se dar conta de que as questões de nossa época são certamente muito mais vastas e variadas. Dificilmente o genocídio em curso na Faixa de Gaza nos faria perguntar neste momento, como se tudo se tratasse disso, se é necessário designar um sexo no nascimento de uma criança palestina. Essa assertiva obviamente é uma provocação exagerada, mas novamente aqui a força retórica do texto de Preciado parece justificar o exagero. Afinal, qual o limite dessa projeção de si para o mundo todo a sua volta, dessa exacerbação do Eu como fundamento da teoria? Não é justamente neste ponto que o conhecimento histórico nos chega para incitar um olhar distanciado, nos convidar a pensar para além do que nossa experiência imediata nos condiciona a pensar? O conhecimento histórico não oferece justamente a possibilidade de desestabilizar a evidência de um Eu soberano, encarnado na pele de um sujeito solar com pretensões universalizantes?
Tais indagações, evidentemente, não sugerem nenhuma ingenuidade na postura de Preciado, sem dúvida uma das referências teóricas fundamentais no debate de gênero hoje e instigador de novas formas de subjetividade. Todo o posfácio nos traz uma relevante reflexão a respeito da importância do nome, esses “órgãos de papel” segundo suas palavras, nos debates atuais em torno dos gêneros e da sexualidade. Mas diante dos ruídos editoriais causados pela publicação das Mémoires, seu texto e a polêmica na qual foi talvez involuntariamente envolvido nos incitam a pensar nas relações entre teoria e historiografia. E se o posfácio do filósofo espanhol nos coloca questões sobre a teoria como aquelas acima mencionadas, o prefácio recusado de Sonia Comb igualmente nos faz pensar sobre o papel da historiografia nesta desavença.
Ao contrário das idas e vindas no tempo que o teórico realiza, Comb, no texto por ela mesma disponibilizado na internet e que traz uma versão ligeiramente modificada do texto enviado à editora, faz questão de deixar evidente seu olhar de historiadora diante da experiência vivida por Body. Em um trecho peculiar, informa que as Mémoires são ali consideradas como um “testemunho (témoignage), tal como foi escrito no estilo de sua época”. É tal estilo, portanto, eivado de romantismo e dos preconceitos “então dominantes”, que permite situar o texto em seu próprio contexto. Comb informa ainda que a intenção em disponibilizar publicamente seu prefácio indeferido é o de deixá-lo à disposição de leitoras, leitores, bem como de teóricos do gênero, salientando que ela se limita tão somente a “restituí-lo [o texto de Body] no contexto da época em que foi produzido”. Embora não explicitado, o parágrafo é claramente uma resposta à polêmica contra Preciado, pois ele não consta na versão original do texto que seria publicada, tratando-se de uma inserção posterior à recusa editorial.
Uma boa parte da referida “restituição à época” que forma o prefácio nada mais é do que um resumo das Mémoires, e a todo momento Comb faz questão de estabelecer o recorte e a distância que separa presente e passado. Mostrando, por exemplo, como que, mesmo sendo criado durante duas décadas como uma pessoa do sexo feminino, Body manifesta um sentimento de superioridade masculina, afirma que ele “interiorizou os estereótipos atribuídos então, e por muito tempo ainda, aos homens”. Em seguida, defende que “no lugar de ‘desconstruir’ o gênero, ou de colocar em causa sua estabilidade como se verá quase um século mais tarde, ele o reconstrói adotando todos esses estereótipos”. Em outras palavras, antes da história de uma pessoa trans do século XXI, o relato de Body mostra na verdade as memórias de um homem do início do século XX. Cabe destacar que esta passagem não é uma inserção posterior e já se encontrava na versão original do prefácio que seria publicada.
Em seguida, em uma seção do texto significativamente intitulada “as identidades reveladas”, Comb passa a narrar como o historiador Hermann Simon, oriundo de uma família judaica berlinense, conseguiu nos anos 1980 e 90 reconstituir a “verdadeira” identidade de Body, encontrando por trás do pseudônimo o nome de registro da pessoa que narrou as Mémoires: Karl M. Baer, criado até os vinte anos com o primeiro nome de Martha (para Preciado, o M. do seu nome masculino é uma referência ao nome morto feminino). A história das comunidades judaicas vindas do leste europeu aparece, então, como um possível fator explicativo para o “erro” na atribuição do sexo da criança quando de seu nascimento: uma provável tentativa de se escapar ao alistamento militar obrigatório reservado aos indivíduos do sexo masculino, sobretudo de ascendência judaica, que vigorou em boa parte do século XIX. Se, no entanto, tal alistamento não era mais uma regra quando Karl nasceu, talvez fosse ainda algo inscrito na memória cultural daquelas comunidades, justificando o receio pelo nascimento de um indíviduo do sexo masculino. Na dúvida, então, optou-se pelo registro com o nome feminino Martha. “A hipótese é plausível”, sugere a historiadora.
Em seguida, outros casos famosos de transição de sexo são brevemente mencionados, entre eles o de Abel Barbin. Dali passamos para alguns breves comentários sobre a recepção do texto de Body em 1907, e chegamos ao contexto médico-jurídico que possibilitou a mudança de sexo na Alemanha guilhermina, motivo de algumas das críticas de Preciado. No texto, são mencionadas, a partir da documentação disponível, descrições anatômicas do sexo de Body, indicando seus caracteres primários e aqueles secundários que definiriam sua identidade masculina (ter um gosto pelo tabaco ou por joias, por exemplo). Comb se preocupa, inclusive, em discutir se houve realmente uma cirurgia para a mudança de sexo e se era uma prática comum naquela época, indicando que as fontes não sugerem isso. Essa obsessão anatômica seria, para Preciado, mais uma das violências cometidas contra todas as pessoas intersexuais. Independentemente de ter ou não havido a cirurgia, a mudança da identidade foi realizada a partir de decisão jurídica e processo administrativo para mudança de nome, algo também descrito em seus condicionantes históricos no prefácio. São dedicadas ainda algumas páginas ao médico responsável por auxiliar Body em sua transição, Magnus Hirschfeld, nome importante da sexologia desde o final do século XIX em sua luta constante por despatologizar e descriminalizar a homossexualidade.
As partes finais do prefácio abordam as origens étnicas de Body, assinalando que sua ascendência judaica não é mencionada nas memórias. Elas, inclusive, dão a entender que era uma pessoa católica quem estava narrando. Comb destaca a atuação política de Body desde antes da transição, militando pelos direitos das mulheres e contra a prostituição e o tráfico de jovens garotas de origem judaica, situando tal atuação no contexto de antissemitismo e de ativismo feminista na Europa do início do século XX. Os perigos vivenciados por judeus no contexto alemão daquelas primeiras décadas do século assumem uma importância central no prefácio. Uma ênfase especial é dada à perseguição nazista contra Hirschfeld, que se exilou da Alemanha em 1930 sem estar presente quando seu Instituto foi invadido e sua biblioteca e equipamentos destruídos em 1933. Para a autora, a ascensão nazista e a Segunda Guerra acabaram por ocasionar uma regressão nas discussões sobre identidades sexuais estimuladas por Hirschfeld até então.
Além do prefácio, Sonia Comb redigiu também um curto epílogo que seria publicado originalmente logo após as Mémoires, antes do posfácio de Preciado. Com informações factuais a respeito da vida de Body antes e após a transição, por ele sabemos que seus irmãos se suicidaram antes de serem enviados a campos de concentração e que ele conseguiu fugir e se exilar na Palestina, casou-se duas vezes e morreu em 1956 aos 71 anos em Israel. Nada mais se sabe, segundo a historiadora, sobre a vida de Karl M. Baer em seu exílio após a fuga dos nazistas.
A tarefa de apresentação/contextualização realizada por Comb é uma forma de escrita da história que se poderia considerar bastante tradicional, permeada por discussões sobre fontes e amparada por referências à bibliografia pertinente, reconstituindo alguns fatos que ajudam a situar melhor o contexto de produção das memórias de Body, mas que deixam muitas lacunas à luz dos debates contemporâneos em torno da sexualidade e dos estudos de gênero. Ainda que ela própria reconheça não estar familiarizada com o campo, para algumas leitoras e leitores mais exigentes a ausência de uma discussão mais detida a partir da teoria deixa uma impressão lacunar após a leitura. Afinal, seria por demais insuficiente acreditar que o trabalho historiográfico se resume a tão somente reconstituir contextos. De todo modo, para ser honesto com a autora, a intenção do prefácio era tão somente esta e ele é de modo geral elucidativo para uma melhor compreensão histórica do mundo em que Body vivia quando escreveu suas memórias.
No fundo, considerando ambos os textos, não deixa de ser uma experiência de leitura interessante essa de acompanhar formas tão distintas de se encarar uma experiência ao mesmo tempo singular e representativa como aquela de Body. Preciado prefere investir num longo e por vezes repetitivo texto para tratar dos problemas teóricos colocados pelo gesto de dar nome aos corpos e, a partir disso, nomear os indivíduos. Se o título original de seu posfácio era Organes de papier (Órgãos de papel), na versão final virou Mon nom est Body (Meu nome é Body). Comb, por sua vez, após todo o esforço de contextualização, opta por intitular o epílogo onde narra o destino de Body com uma pergunta: Qui est N. O. Body? (Quem é N. O. Body?), oferecendo pistas, mas deixando, ao final, a tarefa da resposta a quem se propuser a ler as Mémoires.
Em seu intento de exorcizar a historiografia, Preciado reconhece Body como um “objeto histórico, literário e político fascinante”. Se, no entanto, a rejeição pela fixação de identidades sexuais ou da definição de quem era verdadeiramente Body lhe serve de argumento para a recusa da história, o filósofo não deixa de reconhecer a importância de saber que Body era na verdade judeu e não cristão. E essa reconstituição histórica não seria possível se não houvesse a intervenção do historiador fazendo história. Cabe a pergunta, assim, sobre quais identidades podem ou devem ser ditas e definidas e a quais esse discurso sobre seria uma violência, um gesto “obsceno”, segundo suas palavras. Afinal, em sua perspectiva teórica, Preciado reconhece a importância de abordar a sexualidade igualmente pela chave das teorias decoloniais e raciais. Por isso critica a abordagem de Foucault a respeito dos chamados “hermafroditas”, aproveitando o recente lançamento dos manuscritos que o autor francês havia preparado como um dos volumes de sua História da sexualidade, mas que nunca foram publicados em vida: Foucault ignorou os arquivos coloniais. Em outras palavras, identidade de gênero e identidade racial ou étnica precisam ser encaradas em chave interseccional. Nesse sentido, exorcizar a história seria, muito além de um mote político, um equívoco metodológico.
O confronto entre as duas posturas, a da historiadora e a do teórico queer, convidam então a pensar quem, de fato, pode dizer algo a respeito de N. O. Body, e como, a partir de que pressupostos, isso pode ou deve ser feito hoje. Essa questão parece fazer todo sentido no contexto dos debates contemporâneos e, no entanto, a decisão editorial de ceifar os textos de Comb privou leitoras e leitores desse jogo proveitoso, ainda que dissonante. Certamente tanto a historiografia como a teoria queer teriam algo a ganhar com esse debate sendo travado abertamente, e não escamoteado por um gesto deliberado e pouco pertinente. Alguns comentários sobre a decisão da editora podem ser relevantes para finalizar esse relato sobre a controvérsia.
Livraria Le Dilettante, número 7 da place de l’Odéon, praticamente ao lado do belo teatro que dá nome à praça. Um ambiente onde o aparente caos esconde certa ordem na organização de livros usados, com uma boa oferta de literatura de língua francesa e preços adequados. Segunda-feira, 20 de abril. Eu olhava as ofertas nos balaios da calçada e a Carol seguiu para conferir os livros no interior da loja. Tão logo adentrei no ambiente e, após uma visada geral no ambiente, a encontrei mais ao fundo, com um volume na mão e um sorriso entre incrédula e curiosa. Sem falar nada, ela simplesmente me apontou a capa do livro que segurava, na qual constavam os nomes de três pessoas como autores: N. O. Body mais acima, Paul B. Preciado, na parte de baixo e, entre ambos, as letras formavam o nome de Sonia Comb. Tratava-se da edição das provas não corrigidas (épreuves non corrigées) do livro, datada de 26 de fevereiro; a edição que posteriormente foi abandonada pela referida escolha editorial.
Não é incomum encontrarmos nas livrarias parisienses essas edições das épreuves à venda. Espécie de versão ainda “não oficial”, ela se insere no circuito comercial das obras e é usada para sua pré-divulgação entre jornalistas e outros meios de circulação. Em seguida, acabam ganhando as prateleiras dos livros usados e de ocasião. A Gallimard, por exemplo, normalmente disponibiliza alguns desses volumes nos balaios colocados em frente à sua loja, no boulevard Raspail, sempre por valores bastante abaixo do preço normal. Cabe ao leitor e à leitora o risco de ler um texto que talvez contenha erros e problemas de formatação, ou mesmo que não equivalha completamente à obra final. No caso das épreuves das memórias de N. O. Body, o que surpreende é justamente o fato de que a edição difere substancialmente da versão que se poderia considerar como a “oficial”.
Logo de cara os aspectos formais chamam a atenção: o nome de N. O. Body em maiúsculas pretas, em fonte ligeiramente maior que os outros dois nomes contidos na capa, seguido, com o mesmo tamanho, do título vermelho em caixa alta. Em seguida, um pouco acima da metade, fonte de tamanho bastante reduzido, em itálico preto, apenas a inicial maiúscula, indicando Préfacé et traduit de l’allemand par (Prefaciado e traduzido do alemão por), e o nome em caixa alta de Sonia Comb. Da metade para baixo da folha, lemos, nos mesmos padrões da menção ao texto de Comb, suivi de, com o nome de Paul B. Preciado e o título em vermelho de seu ensaio. O que se percebe, portanto, é que nesta primeira versão abandonada, o destaque todo era dado ao nome de Body e ao título escolhido para suas memórias, bastante distinto daquele impresso na versão “oficial”: Anatomie d’une transition (Anatomia de uma transição). O próprio texto de Preciado, como já dito, possuía título diferente: Organes de papier (Órgãos de papel).
Entre uma e outra versão, o apagamento da historiadora e a definição do livro como uma espécie de dístico com autorias compartilhadas: se antes era uma obra de Body, prefaciada por uma historiadora e seguida pelo posfácio de um filósofo especialista em teoria queer, o que está sendo efetivamente comercializado é a obra de Body e de Preciado. Entretanto, se os aspectos formais permitem até mesmo sugerir certa simetria entre os dois, há uma dimensão que nenhuma estratégia editorial pode contornar: Body não está mais aqui para intervir em seu livro. Quem detém a palavra sobre ele, portanto, é apenas um dos autores, o filósofo espanhol. É ele quem comentou o lançamento na livraria, é ele que respondeu a entrevista da Radio France, e será sempre ele a falar, enquanto autor, sobre seu livro.
Como já mencionado, ao explicar sua decisão editorial ao Nouvel Obs e ao Le Monde, Christine Marcandier sugeriu uma “dissonância” entre os dois textos, uma “disjunção” que comprometeria, em seu entendimento, a plena compreensão das Mémoires ou, pelo menos, a fruição esperada com sua leitura: “não eram necessários dois textos que se contradiziam”, salientou a editora. Fica evidente que ela assumiu deliberadamente a posição teórica de Preciado. Para o filósofo, recorrendo à ideia de parergon de Jacques Derrida que, no limite, é aquilo que Gérard Genette chama de “paratextos”, tudo aquilo que de uma forma ou de outra envolve e complementa um determinado texto, tal como prefácio, texto de orelha, quarta capa, resenhas etc., acaba por “canibalizar” o texto, “ultrapassando-o e determinando-o, de modo que não é mais possível conhecer os limites exatos das Mémoires sem ter em conta os comentários e as análises que as apresentam ou as explicam”.
Nas palavras de Marcandier, “se descobrimos toda a complexidade dos textos antes de tê-los lido, nós os destruímos de alguma forma. É preciso lê-los antes de comentá-los”. Além do mais, o fato das memórias serem de uma pessoa não binária torna tudo mais complexo, uma vez que são “tentativas de determinação autônoma da identidade sexual”, e sua “dimensão performativa” estaria impedida (entravée) por um “dispositivo de introdução”. Por fim, salienta ela que “no volume que publicamos, não há introdução, o leitor entra diretamente no livro. Nós fomos ao ponto de sequer inserir notas, considerando que não temos nada a explicar”. Ecos foucaultianos, sem dúvida.
Em 1973 Michel Foucault havia publicado o Moi, Pierre Rivière, ayant égorge ma mère, ma soeur et mon frère… (Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão…), com o relato desse personagem da primeira metade do século XIX, junto com os diferentes discursos em torno do caso, como relatórios policiais, decisões judiciais, diagnósticos médicos e notícias de jornal. Produto de um seminário coletivo organizado a partir de seu curso no Collège de France, Foucault adverte no início do volume que a escolha de publicar o dossiê tinha por objetivo explicitar a “batalha de discursos e através dos discursos” que, de diferentes formas, diziam quem era o parricida. Para tanto, decidiram não interpretar os documentos, com o intuito de simplesmente evidenciar as relações de força que ali se manifestavam. Contudo, acrescentaram ao final da publicação um conjunto de notas escritas pela própria equipe sobre diversas questões a respeito do caso: o saber psiquiátrico, as análises médicas, os aspectos jurídicos, e outros temas correlatos. Desprovido de interpretação, mas não desprovido de comentário, portanto.
Cinco anos depois, como primeiro volume de uma coleção editada pela Gallimard que não teria continuidade, Foucault publicou Herculine Barbin dite Alexine B. (Herculine Barbin dita Alexine B.), com o relato dessa pessoa considerada hermafrodita pelo discurso médico oitocentista, criada como menina e que se viu obrigada a mudar de identidade sexual, passando a ser considerada um homem chamado Abel Barbin. Diferentemente da edição sobre Rivière, neste caso não há apresentação e o volume começa diretamente com os souvenirs de Barbin. Segue então o dossiê com outros documentos correlatos, antecedido de uma breve nota de Foucault sobre a documentação, uma pequena cronologia e o restante de documentos ligados ao caso de Barbin. A decisão de Marcandier, portanto, pode ser situada em diálogo com aquilo que o pensador francês realizou na década de 1970.
Obviamente, se o texto de Body deveria seguir sem nenhum parergon, qual a razão de se inserir um ensaio final, na forma de posfácio, que em última análise se ocupa da tarefa de dizer o texto? Tal pergunta foi colocada pelo Le Monde a Preciado, que concordou que seu ensaio “se inscreve na longa genealogia dos discursos que enquadram”, mas com uma justificativa que matiza a decisão: “ao propiciar uma tomada de consciência (prise de conscience) em relação aos sujeitos das violências [geradas pelos discursos], eu identifico pistas sobre a maneira de se desprender disso e incito a adotar um outro olhar”. Ou seja, no limite ele indica o que deve ser feito e como o texto deve ser lido.
Chamam a atenção ainda questões que envolvem a própria tradução do texto. Marcandier salientou problemas naquela oferecida por Sonia Comb, considerando que “é muito difícil trabalhar sobre um tal assunto quando não se é especialista em estudos de gênero”. Contudo, parece que o próprio especialista convocado não percebeu alguns impasses das duas traduções. Menciono apenas um único e significativo caso. Em determinado momento, Body faz referência às dúvidas que tinha em relação ao seu Geschlecht, substantivo que pode ser traduzido por “sexo” enquanto designação entre masculino e feminino. Comb optou por traduzir usando a expressão “identidade sexual”, enquanto Béatrice Masoni, tradutora da versão oficial, usou o termo “gênero”. Ora, o próprio Preciado, em seu posfácio, reconhece que a categoria gênero não existia em 1907. Isso quer dizer que a tradução de Comb é melhor? Não tenho competência para afirmar nada a esse respeito, mas cabe indicar que em outro momento em que Body usa novamente a palavra Geschlecht, Masoni foi literal ao traduzir por “sexo”, enquanto a historiadora optou por “gênero”. De resto, não encontrei informações indicando se Masoni é ou não especialista em estudos de gênero o que, seguindo o raciocínio da editora, tornaria sua tradução mais autorizada.
Os impasses da tradução apenas mostram a complexidade do tema e novamente trazem para a discussão as relações entre historiografia e teoria queer. Se do ponto de vista teórico falar em termos de gênero pode fazer muito mais sentido diante dos atuais debates, projetar a categoria para um contexto em que ela não existia não daria uma falsa sensação de semelhança quando, na verdade, a historiografia poderia mostrar as profundas diferenças que separam um contexto do outro? A escolha terminológica, neste caso, não é mero preciosismo estilístico. Preciado, tão atento à questão dos noms (nomes) enquanto atribuição de identidade social aos indivíduos parece não ter se preocupado com os noms (substantivos) que designam uma determinada realidade a partir das condições históricas que essa mesma realidade oferece.
No fundo, algumas notas explicativas, esse velho procedimento que a erudição histórica nos propicia, seriam muito bem-vindas para a leitura das Mémoires. Isso em nada comprometeria a eficácia do texto, nem funcionaria, a meu ver, como uma espécie de violência epistêmica contra Body. Poderia, inclusive, evitar a ingênua crença de que um texto, qualquer que seja ele, carrega em si uma essencialidade pura, intocada por tudo aquilo que o envolve e o desdobra em sua riqueza própria. Seria despropositado aqui fazer menção às inúmeras teorias sobre a leitura que analisam tudo o que está implicado no gesto de ler, mostrando que nunca existe uma relação puramente asséptica entre leitor e texto.
Mesmo a proposta de Foucault e sua equipe de não interpretar o relato de Rivière não perdurou lá por muito tempo. Além das várias notas que já faziam parte de sua primeira edição, agora mesmo em 2026 uma das integrantes daquela equipe, a antropóloga Jeanne Favret-Saad, lançou o livro L’impossible famille Rivière. Retour sur un triple meutre en 1835 (A impossível família Rivière. Retorno sobre um triplo homicídio em 1835), no qual ela problematiza a escolha de 1973 e oferece uma interpretação sobre o caso, promovendo aquilo que certamente é um dos objetivos não só da antropologia, mas igualmente da historiografia, dos estudos de gênero e das teorias queer: um ganho de conhecimento sobre a experiência humana. Mesmo o projeto sobre Abel Barbin conta hoje com uma nova edição em que Éric Fassin problematiza criticamente alguns pressupostos da compreensão foucaultiana, criando uma profícua dissonância no volume.
Infelizmente, pela escolha editorial ortodoxa que foi feita no caso das Mémoires de N. O. Body, perdemos a oportunidade de confrontar duas perspectivas distintas e de manter aberto um diálogo crítico entre historiografia e teoria queer. Ao final dessa controvérsia, revelada a anatomia do livro, ambas acabaram desencontradas, como se tudo devesse passar por uma simples escolha binária: ou uma ou outra.
* Fernando Nicolazzi. Professor do Departamento de História da UFRGS, membro do Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (LUPPA) e pesquisador convidado na Université Paris 8 Vincennes-Saint Denis. Este artigo é resultado de pesquisas desenvolvidas a partir do projeto CAPES-COFECUB “Historiografia e historiadoras/es em uma era de transições: perspectivas franco-brasileiras”, sob coordenação de Armelle Enders (Université Paris-8) e Temístocles Cezar (UFRGS). Financiamento: CAPES. Agradeço as leituras atentas e aos comentários críticos feitos por Aline Michelini Menoncello e Caroline Silveira Bauer. O título, inclusive, foi inspirado em mais um dos achados da Caroline nessa história toda.
REFERÊNCIAS
BODY, N. O. Mémoires des années de jeune fille d’un homme, suivi de Mon nom est Body, de Paul B. Preciado. Collction “Librarie du XXIe siècle”. Paris: Seuil, 2026.
COMB, Sonia. “Comment on peut-on être trompé(e) et spolié(e) de son travail par une maison d’édition”. Le Club de Mediapart, 6 de março de 2026. Disponível em https://blogs.mediapart.fr/sonia-combe/blog/060326/comment-peut-etre-trompee-et-spoliee-de-son-travail-par-une-maison-d-edition (acesso em 25 de abril de 2026).
FAVRET-SAADA, Jeanne. L’impossible famille Rivière. Retour sur un triple meutre en 1835. Paris: Gallimard, 2026.
FOUCAULT, Michel. Les hermaphrodites. Paris: Gallimard, 2025.
Herculine Barbin dite Alexine B. Présenté para Michel Foucault. Les vies parallèles. Paris: NRF, Gallimard, 1978.
Herculine Barbin dite Alexine B. Présenté para Michel Foucault. Paris: Gallimard, 2014.
Moi, Pierre Rivière, ayant égorge ma mère, ma soeur et mon frère… Un cas e parricide au XIXe si`cle présenté para Michel Foucault. Collection Archives (dirigée par Pierre Nora et Jacques Revel. Paris: Éditions Gallimard/Julliard, 1973.
PRECIADO, Paul B. Je suis un monstre qui vous parle. Rappor pour une académie de psychanalistes. Paris: Grasset, 2020.
RACZYMOW, Henri; FIGUIER, Richard; POIRIER, Yannick. “Le Seuil et la censure”. Le Club de Mediapart, 1º de abril de 2026. Disponível em https://blogs.mediapart.fr/sonia-combe/blog/010426/le-seuil-et-la-censure-0 (acesso em 25 de abril de 2026).
Créditos na imagem de capa: Paul B. Preciado e Vanasay Khamphommala la livraria Violette & Co, 23 de abril de 2026 (foto do autor).
Fernando Nicolazzi
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História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
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A1 História / A2 Filosofia
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