Tenho medo

que um dia minha cabeça transborde.

 

Que eu diga palavras

antes delas aprenderem a andar.

 

Que meus pensamentos,

sempre correndo na frente,

me deixem para trás.

 

Não sei explicar.

 

Só sei que às vezes

me sinto uma tempestade

tentando caber

dentro de um copo.

 

Falo demais.

Penso demais.

Sinto demais.

Me importo demais.

 

Entrego flores

onde me pediram apenas um aceno.

 

Acendo todas as luzes

quando talvez bastasse

deixar uma vela acesa.

 

Sou assim.

Exagero em tudo.

Até no carinho.

 

E ninguém nunca pede

tanto assim.

 

Talvez eu seja excesso

num mundo que aprendeu

a viver em doses pequenas.

 

Tenho a estranha sensação

de que sou amada

enquanto me mantenho pequena.

 

Como um balão de hélio

preso por uma fita.

 

Bonito de ver.

 

Mas inconveniente

se tentar subir demais.

 

Então me dobro.

Me diminuo.

Me calo.

 

Aprendo a ocupar

menos espaço.

 

Mas balões não foram feitos

para permanecer no chão.

 

E eu também não.

 

Talvez um dia

ninguém diga nada.

 

Não batam portas.

Não gritem.

Não discutam.

 

Apenas diminuam as respostas.

 

Esqueçam de me contar as coisas.

 

Demorem para voltar.

 

Até que reste apenas

o silêncio.

 

E eu vou saber exatamente por quê.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: IA