Hexagrama 36 — 明夷 (Míng Yí)
Em tempos de obscuridade,
o homem nobre não abandona sua retidão,
mas não a exibe.
Mesmo na escuridão, a luz não está extinta;
deve-se perseverar com integridade interior,
agindo com discrição para atravessar tempos sombrios,
sem perder a esperança.
Escrevo a partir da percepção de que o momento histórico é grave, com a agressão à Venezuela, por parte dos EUA. É uma tentativa de síntese crítica de algumas ideias sobre socialismo, império e América Latina. A discussão parte de um sentimento que, creio eu, não é apenas pessoal, mas geracional e histórico: a percepção de que um ciclo se encerra. Para quem atravessou uma ditadura longa, e acreditou, ainda que com reservas, na possibilidade de soberania latino-americana e justiça social minimamente estruturada, o presente não aparece como transição, mas como trágico refluxo. Um retorno. Um endurecimento. Uma decepção, amarga, mas anunciada.
A Venezuela surgia, nesse cenário, como símbolo maior, a despeito de quaisquer objeções e críticas que pudessem ser levantadas, algumas fundadas, outras inventadas. E não por seu êxito material, sempre frágil, sempre sitiado e sufocado, mas por sua função simbólica, e porque não dizer, como experiência limite desesperada: último bastião sul-americano de um socialismo de Estado explícito, confrontacional, soberano no discurso e no gesto. E isso ninguém pode negar, gostasse ou não do regime. Com Cuba já reduzida e de relevância geopolítica limitada e dependente, a derrocada venezuelana passa a significar algo maior: o colapso da última tentativa regional de enfrentar o império com um projeto estatal alternativo.
Essa leitura não é ingênua nem romântica. Ela reconhece erros internos, contradições, autoritarismos e limites econômicos. Mas afinal, não se faz socialismo em mesa de negociação, com frentes amplas, sem sofrimentos e contradições. Ainda assim, afirma algo central: sem um Estado forte, não há possibilidade de justiça social em escala. Saúde, educação, moradia, alimentação, segurança — nada disso pode ser garantido por coletivos isolados, comunidades autônomas ou redes informais. Porque praticado nesses moldes, por melhores e legítimas que sejam as intenções, não é socialismo; é sobrevivencialismo fragmentado. O único ator capaz de universalizar direitos é o Estado. E, portanto, os ataques ao socialismo de Estado não são apenas ideológicos: são estruturalmente funcionais ao capitalismo global. Setores da esquerda caíram nesse conto do vigário, o da ilusão de que pode haver um socialismo que não seja de Estado. A direita agradece.
É exatamente nesse ponto que emerge a divergência fundamental com leituras contemporâneas desses setores, que apostam no fim do “modelo clássico” como libertação. Contudo, não é que o socialismo de Estado morreu por esgotamento moral, mas sim por cerco sistemático. Quando um modelo ameaça a lógica global, capitalista e neoliberal, de acumulação, ele é estrangulado, economicamente, midiaticamente, diplomaticamente, e, se necessário, militarmente. A China só escapa porque opera numa escala civilizacional, com força produtiva, demográfica e militar que impede a intervenção direta. E ainda assim, paga um preço alto em tensão permanente.
A política chinesa aparece, então, como exemplo incômodo, porém concreto: um socialismo de Estado híbrido, que usa o capitalismo como ferramenta e não como fim, e que conseguiu retirar centenas de milhões da miséria. Isso não é pouca coisa. Dizer que “não é socialismo de verdade” é um luxo retórico que países periféricos não podem se dar. O Estado chinês faz o socialismo possível, num mundo globalizado.
A partir daí, a conversa se desloca para o plano geopolítico mais amplo. Trump surge não como exceção, mas como expressão crua da política imperial norte-americana, vigente desde o final da segunda grande guerra. O discurso de “narcoterrorismo” usado contra Maduro reaparece, quase palavra por palavra, contra Gustavo Petro. E não é diferente do que foi usado contra Muammar Gaddafi e Saddam Hussein. Mudam apenas as acusações, amolda-se o discurso, mantém-se os objetivos. A ameaça velada à Colômbia acende um alerta regional. Não porque um ataque militar direto seja provável no curto prazo, mas porque o dispositivo retórico é o mesmo: criminalizar governos inconvenientes, justificar sanções, isolar diplomaticamente e preparar terreno para interferência. E por fim, invadir, sequestrar, dominar.
Essa lógica não se limita à Venezuela ou à Colômbia. Ela se projeta diretamente sobre o Brasil. A previsão feita, e sustentada historicamente, é de forte interferência norte-americana nas eleições de 2026. Não necessariamente por meios clássicos de golpe, mas via pressão econômica, guerra informacional, manipulação algorítmica, lawfare e financiamento indireto de forças alinhadas.
Quem não lembra da Lava Jato? Dos ataques recentes ao STF, por parte do império? Da guarida que está sendo dada a golpistas que se refugiaram em terras norte americanas?
Lula, nesse contexto, aparece como o último suspiro de um socialismo moderado que jamais conseguiu romper a estrutura colonial, apenas administrá-la com alguma redistribuição. E, frequentemente, golpeado.
Aqui, a discussão alcança seu ponto mais profundo: a constatação de que os sistemas implodem, mas a lógica dominante persiste. O Império Romano caiu, mas a pulsão de conquista continuou nas caravelas. O Império Ibérico declinou, mas a colonização inglesa e francesa europeia seguiu na África e no Oriente. As colônias se tornaram independentes, mas permaneceram presas a cadeias econômicas que produzem fome, miséria e dependência. A história, nesse sentido, não progride moralmente. Se reorganiza tecnicamente.
Trump, então, não é um desvio da história, mas um novo César. Depois dele virá outro. Porque o problema não é o homem, mas a estrutura. Presidentes mudam, a política externa dos EUA permanece. A miséria humana, preciso anotar amargamente, não muda com facilidade. O império troca de rosto, não de objetivo. Muda as armas, mas não as abaixa. Usa tecnologia de ponta para anular e desmoralizar, mas se preciso, invade, sequestra e encarcera.
Diante disso, a ideia que alguns desses setores da esquerda sustentam de que “o que está morrendo não é o ideal, mas o modelo” é contestável: o ideal de justiça social nunca esteve tão debilitado quanto hoje. O discurso dominante da direita, baseado em medo, higienização social, preconceito, meritocracia cínica e apelo à força, conquistou as massas, amplificado por redes sociais controladas por grandes corporações e interesses geopolíticos. Não se trata apenas de derrota política, mas de hegemonia cultural regressiva. E esse deslocamento autoritário não é abstrato, ele se manifesta concretamente. Ainda está viva na nossa memória a lembrança do recente massacre perpetrado pelo Estado, no Rio de Janeiro, amplamente apoiado pela população.
O que se inaugura, então, é uma nova fase de uma empreitada civilizatória devastadora, com mais de 1500 anos de história: a expansão, dominação e exploração contínuas, agora com o adendo de ferramentas em versão digital, financeira e algorítmica, nas mãos de mega corporações que financiam os lobistas que controlam governos. Um colonialismo sem bandeiras, mas com plataformas.
A conclusão não oferece consolo. Não há, no horizonte, promessa de redenção histórica. O que resta é a lucidez trágica: reconhecer que a luta talvez nunca tenha sido sobre vencer definitivamente, mas sobre conter o pior, preservar memória, garantir que nem tudo seja capturado. Os impérios vencem territórios, mas raramente vencem completamente a memória dos que resistiram.
E talvez seja isso o que permanece: não a esperança ingênua, mas a de que a memória não possa ser apagada completamente e de que sobreviva alguma consciência crítica. Não a certeza da vitória, mas a recusa em naturalizar a barbárie. Em tempos de repetição histórica, isso já é uma forma de resistência.
A história pode repetir a barbárie, o que não deveria é repetir o esquecimento.
Créditos na imagem de capa: egeo
Erich Georg
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História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
Qualis Periódiocos:
A1 História / A2 Filosofia
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